O taxista e a sabedoria popular

O taxista e a sabedoria popular

Outro dia, em uma corrida de táxi, estava eu todo engravatado e, adivinhem, o taxista não perdeu a chance de puxar aquela conversa. Como meu destino era uma instituição do Sistema Financeiro Nacional, ele sintonizou na faixa de Economia e mandou na lata: “Dôtô, o senhor trabalha com mercado financeiro, né?!” Sim, eu respondi. O resto do diálogo transcrevo abaixo:

– O que está achando da situação econômica?!
– Difícil. O brasileiro gastou um pouco mais do que a conta, principalmente se endividando e, de agora em diante, deverá apertar um pouco mais o cinto.
– O senhor acha que as dívidas foram um coisa ruim pro brasileiro, dotô?
– Acho, sim. Vejo muita gente se atrapalhando com dívidas caras, nas quais pagam juros altos, que levam graaande parte de suas rendas. Muitas, inclusive, por não se planejarem, não conseguem pagar e acabam perdendo anos de suas vidas pra sair do buraco!
– O senhor acha mesmo, dotô?!
– Olha, já faz mais de 20 anos que eu lido com este assunto… Vejamos o caso deste seu carro. Se o senhor comprá-lo a vista, vai pagar muuuuito menos do que se optar pelo financiamento, opção em que vai ter que pagar juros durante anos… Dependendo da taxa de juros, o total pago somando todas as parcelas dá quase que pra comprar dois carros. O senhor já pensou nisto?
– Olha, dotô, eu não penso nisto não, viu. Aliás eu penso muito diferente do senhor…

(Naquele momento, possuído por uma curiosidade feminina, não me contive:)

– Uai, é mesmo? Então me conte aí!
– Ó, dotô, pro senhor saber, este carro aqui é financiado. Todo mês eu tenho que pagar uma parcelinha boa do financiamento. Como o senhor falou, pesa no bolso mesmo. Mas eu acho isto ótimo… Sabe por que, dotô? Porque senão eu não saía de casa pra trabalhar. Ficava lá, dormindo até tarde, ia pros botecos e passava o dia inteirinho à toa… Isso aqui, dotô, é a minha âncora. Quando eu estou cansado no meio do dia e me dá aquela vontade de voltar pra casa, é na prestação do financiamento que eu penso pra dar aquele ânimo de trabalhar mais um bocado, sabe..?

(Neste ponto, eu que tinha até assumido um ar meio professoral durante a conversa, ao citar a minha experiência, me recolho. Admito que tomei uma aula do simpático taxista. Humilde, respeitoso e sábio. Não exatamente das finanças, mas do comportamento humano, característica ainda mais importante do que as tecnicalidades das finanças ou da matemática financeira. Ali a questão se encerrou:)

– De uma maneira geral, apesar de eu não gostar de dívida, se é só assim que o senhor se motiva, se está feliz, se sentindo útil e está conseguindo pagar suas prestações em dia, acho que o senhor tem toda razão, viu!

Autor

Frederico Torres
Profissional do mercado financeiro há 20 anos e interessado em como fazer o $$$ parte de nossa vida de forma mais saudável.

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