Novas regras do crédito rotativo do cartão

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Na nossa participação desta semana no programa Em Boa Companhia, da Rádio Inconfidência, falamos das mais recentes mudanças na regulamentação dos cartões de crédito. Mais especificamente, nas regras do crédito rotativo.

Em 2017 foram anunciadas mudanças importantes, visando diminuir um grave problema de endividamento que vinha atingindo milhões de famílias. Era crescente o número de pessoas que se viam afogadas pelos juros do crédito rotativo. Agora foram anunciadas novas regras, que passaram a vigorar no dia 01º de junho.

Recentemente falamos na rádio sobre as mudanças no cheque especial. Agora explicamos o que mudou no rotativo e comentamos a relação do brasileiro com o crédito.

Além disso, ao final, nosso Pedro Vieira, comandante do programa, trouxe de volta um assunto que tomou conta do país no final de maio: a greve dos caminhoneiros. Que lições podemos tirar de toda aquela confusão?

O que é crédito rotativo?

Vamos começar falando um pouco sobre como funcionam as dívidas feitas com cartão de crédito. Em primeiro lugar, é importante aproveitar uma fala do Pedro e lembrar que qualquer compra feita com cartão de crédito é uma dívida. E não há mal nenhum nisso. Se você compra algo hoje usando seu cartão de crédito, e só vai pagar no mês que vem, então contraiu uma dívida. Chegou a fatura e você pagou o saldo integral? Pronto, quitou a dívida. Sem juros. Normal. Saudável, até.

O problema começa quando as pessoas deixam de pagar o saldo integral. Aí elas entram no perigoso crédito rotativo. E assim vão esticando a dívida e tornando-a mais cara.

A legislação que vigorava até 2017 determinava que o consumidor poderia pagar um valor mínimo na fatura do cartão de crédito, que era de 15%.

Quem tem cartão já deve ter visto isso. Vamos supor que o total de compras da pessoa fosse de R$ 1000. A fatura chegava com os seguintes dizeres: “Total da fatura: R$ 1.000,00. Pagamento mínimo: R$ 150,00”.

Isto é, a pessoa poderia optar por pagar algum valor entre os R$ 150 e os R$ 1.000. Desta forma, não estaria inadimplente. Porém, se não pagasse o valor total, aquela parte que ela não pagou entraria no chamado crédito rotativo.

Se a pessoa pagasse apenas os R$ 150, estaria jogando R$ 850 para o mês seguinte. E aí, sobre esse valor, incidiriam os juros do crédito rotativo, que estão entre os mais altos do mercado. Suponhamos que fossem de 17% ao mês. Nesse caso, sobre os R$ 850 incidiriam juros de quase R$ 150! Resultado: na fatura seguinte, além das compras do mês, viriam mais R$ 1000 para a pessoa pagar. R$ 850 do mês anterior e mais R$ 150 de juros.

Mudanças nas regras em 2017

Grande parte da população brasileira não se organiza financeiramente, nem procura se informar sobre como as coisas funcionam. O resultado é que milhões de pessoas entraram no crédito rotativo e se endividaram além da conta.

Então, em 2017 houve uma mudança importante nas regras. As instituições financeiras foram obrigadas a oferecer uma linha de crédito mais barata para os clientes que ficavam mais de um mês pendurados no crédito rotativo. Por exemplo, um crédito pessoal. Essa linha tem taxas de juros menos caras, em torno de 5% a 6% ao mês.

Regular e não regular

Lembra quando eu disse que as pessoas poderiam pagar um valor a partir de 15% do saldo da sua fatura? Pois é, mas muita gente não pagava nada. Deixava a fatura vencer e seja o que Deus quiser. Essas pessoas, assim, se tornavam inadimplentes.

Foram criadas, então, as figuras do crédito rotativo regular e não regular. O regular é aquele cliente que pagou pelo menos os 15% da fatura, rolando o restante da dívida. O não regular é o que não pagou nada.

As instituições financeiras podiam cobrar taxas de juros diferenciadas para o crédito rotativo regular e o não regular. Por que isso é importante? Você já vai entender.

Mudanças nas regras em 2018

As regras que entraram em vigor em 01 de junho de 2018 acabaram com essa história de cobrar taxas diferenciadas para o regular e o não regular. Agora a taxa de juros é uma só, a do regular – mais baixa –, sendo permitida apenas cobrança de multa.

Além disso, acabou a determinação de que o pagamento mínimo seja de 15% da fatura. Os bancos poderão estipular outros percentuais para o pagamento mínimo, inclusive variando de acordo com o perfil do consumidor.

Porém, permanece a obrigação, por parte das instituições financeiras, de oferecer uma linha de crédito com juros menores que os do crédito rotativo.

“Nossa, então agora ficou bom demais, hein?” Não, senhor. Continua ruim. Um pouco menos ruim, de fato, mas ainda é muito caro, não há motivo para comemorar.

Flexibilização do pagamento mínimo e redução nas taxas de juros poderiam até ser uma boa notícia. O problema é que o brasileiro usa mal os produtos financeiros disponíveis. Por isso vamos aproveitar a oportunidade e falar um pouco sobre esse mau uso.

Mau uso

Vamos listar algumas situações em que o brasileiro costuma mandar mal na hora de usar produtos financeiros. Em alguns casos, porque é desorganizado, ou até irresponsável. Em outros, porque a informação chega confusa, mesmo.

De toda forma, é importante tomar cuidado.

Crédito rotativo

Vamos começar pelo próprio crédito rotativo. Diante das mudanças nas regras, tem gente que pensa “Opa, que bom, vou conseguir me livrar dessa dívida cara”. Bom sinal. Indica mudança de postura.

Mas tem gente que pensa “Que bom, vou poder gastar mais um pouco”. Péssimo sinal. Indica que vem aí mais endividamento.

10 dias sem juros no cheque especial

Algumas instituições financeiras permitem que a pessoa use o cheque especial durante 10 dias consecutivos a cada mês, sem pagar juros. Mas se usar 11 dias ou mais, precisará pagar pelo período todo.

Tem gente que usa esse benefício todos os meses. Em um mês usa 5 dias. No mês seguinte usa 7. Dali a pouco está usando os 10 dias todos os meses. Mau sinal. Indica que o orçamento não está combinando com as despesas. Aí chega um mês em que a pessoa usa o limite por 11 dias… e acaba entrando na ciranda do cheque especial.

Não custa lembrar: cheque especial e crédito rotativo devem ser usados somente em emergências, quando acontece algo totalmente fora do normal. Se você usa essas duas modalidades porque se distraiu, então é mau sinal. E se usa regularmente, todos os meses, como se fosse parte da sua renda, péssimo sinal. Cuidado!

Cheque especial junto com aplicação

Já vi – algumas vezes – uma pessoa ter aplicação em um banco e usar o cheque especial no mesmo banco. Não faz o menor sentido. A pessoa paga 10% ou 15% de juros ao mês e recebe 0,5% de rendimento. O melhor é retirar o dinheiro da aplicação e cobrir o buraco na conta.

“Ah, eu não quero mexer na minha aplicação”. Ora, mas já está mexendo! É melhor retirar um pouco da aplicação agora do que pagar juros caros e, depois, ter que retirar tudo. Faça um resgate, cubra o buraco, organize suas contas e em breve vai poder colocar o dinheiro de volta.

Título de Capitalização

Não nos cansamos de repetir: Título de Capitalização não merece ser chamado de investimento. É um jogo. Deveria ser vendido na casa lotérica. Aliás, alguns deles de fato são, e esses eu respeito. Não tenho nada contra eles, pois estão no lugar certo.

O problema são aqueles vendidos no banco, como se fossem um investimento, uma “poupança forçada” como alguns gerentes gostam de dizer. Muito forçada, eu diria.

Já vi gente que paga $ 100 por mês em título de capitalização, e de vez em quando entra no cheque especial. Está pagando cerca de R$15 de juros ao mês, e nada, ou quase nada. Cruel.

Confundir saldo com limite de crédito

Esses extratos que as pessoas retiram no caixa eletrônico às vezes não são muito claros. Misturam o saldo real com o limite de crédito. Uma pessoa mais distraída ou menos informada pode facilmente se confundir e acabar gastando o que não tem.

E quando o extrato abrevia as palavras? Aí fica quase impossível. “Sd at: R$ 340,00. Lim Cr: R$ 2.000,00.  T Disp: R$ 2.340,00”. Quem entende uma coisa dessas?

Em relação a isso, creio que os bancos poderiam facilitar a vida do cidadão. Já ouvi muita gente questionar se eles não fazem isso de propósito. Não sei dizer. Mas que a informação poderia ser mais clara, poderia.

Enquanto os bancos não facilitam nosso lado, cabe ao consumidor ficar atento. Entender que existem várias informações no seu extrato além do saldo. Se não conseguir entender, peça ajuda ao funcionário do banco ou a alguém de sua confiança.

Contratar crédito sem perceber

Quando vou sacar dinheiro no caixa eletrônico do meu banco, a opção “Crédito pessoal” aparece na primeira tela, em uma cor muito mais chamativa do que as demais opções. Uma vez, distraído e apressado, eu cheguei a clicar nessa opção. Na mesma hora percebi o erro e voltei ao início.

Mas sabemos de casos de gente que contratou crédito sem perceber! A pessoa acessa o caixa para sacar dinheiro, entra na opção errada sem perceber, vai clicando, digita até a senha – pensando que está sacando o dinheiro. Dias depois encontra uma cobrança de prestação em seu extrato.

Também nesse caso os bancos poderiam ser mais claros. Mas, enquanto não são, cabe ao cidadão ficar bastante atento na hora de acessar o caixa.

Voltando

Aproveitamos a mudança nas regras do crédito rotativo para, mais uma vez, convidar o leitor a cuidar do seu dinheiro e do seu comportamento.

Você, que leu o texto até aqui, conseguiu compreender as mudanças? Ouça também o podcast, talvez fique ainda mais claro. Se tiver dúvida, fale conosco!

Sabemos que a crise econômica é cruel e que leva muitas pessoas a uma situação difícil, sem que seja culpa delas. Nosso conselho é que tentem conhecer sua realidade atual e se esforcem para reduzir gastos.

Mas sabemos, também, que há muita gente em situação difícil por consequência das suas próprias atitudes, e não por culpa da crise. A essas, nosso conselho é basicamente o mesmo, mas com um leve puxão de orelha. Conheçam sua realidade, se organizem, controlem o consumismo.

E a todas as pessoas, nossa garantia: vale a pena se organizar. A vida fica mais leve, com menos sustos e com mais liberdade.

Crédito rotativo

Greve dos caminhoneiros

Ao final do programa, Pedro Vieira quis saber nossa impressão sobre a greve dos caminhoneiros. O programa foi gravado no dia 07 de junho, quando o fornecimento de combustíveis e demais mercadorias já estava praticamente normalizado.

Não vamos discutir até que ponto cada parte – caminhoneiros, empresas, governo, Petrobras – tem razão nessa história. Seria assunto para outro post, ou talvez um livro inteiro.

Cabe dizer que foi um episódio negativo, por vários motivos:

  • Perda de produção: toneladas de produtos se deterioraram por falta de transporte ou de tratamento
  • Inflação: Alguns produtos começaram a faltar no mercado e, por isso, encareceram. Isso gerou inflação no mês de maio. Mas o problema não fica só em maio. Alguns produtos ficaram mais caros por causa da greve, mas, depois que as coisas voltaram ao normal, não retornaram ao seu preço original. Por exemplo: um produto que normalmente custava R$ 5,00, subiu para R$ 10 durante a crise, e depois voltou para R$ 7,00 – e não para os R$ 5,00 originais. Essa perda de parâmetro é muito perigosa. O dragão da inflação, que estava dormindo, de repente foi cutucado. Esperamos que não acorde.
  • Piora na confiança: os investidores externos normalmente já olham para o Brasil com certo receio, por diversas razões. Agora apareceu mais uma: a extrema dependência do país em relação a um modal de transporte e a um determinado segmento da sociedade.

Então, em nossa opinião, a greve traz preocupação. Há muito a ser feito em nosso país até amadurecermos como sociedade.

Concluindo

Vêm aí as eleições. É preciso escolher os candidatos com muito cuidado. Porém, mais que isso, cabe a cada um de nós refletir sobre seu papel como indivíduo, sobre o papel de sua classe profissional – seja ela qual for – na discussão dos problemas que nos afligem. Este é um exercício constante.

Nós, do Educando Seu Bolso, continuamos acreditando muito na mudança de atitude. Cada um de nós pode melhorar a forma como consome, como cuida do seu dinheiro, como se relaciona com o meio ambiente, como participa da sua comunidade. A mudança é possível e vale a pena!

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