Controle financeiro: empresas auxiliam funcionários

Na nossa participação desta semana no programa Em Boa Companhia, da Rádio Inconfidência, falamos sobre como algumas empresas auxiliam seus funcionários a ter controle financeiro. Todos nós sabemos que muita gente tem dificuldade em cuidar bem do próprio dinheiro. Sabemos também que problemas financeiros são capazes de tirar o sono das pessoas. Pois bem, as empresas têm percebido que funcionários financeiramente organizados geram melhores resultados. Assim, elas próprias têm investido tempo e dinheiro em estimular que seus colaboradores tenham melhor controle financeiro pessoal.

Esta postura vem se tornando cada vez mais comum em outros países, como os Estados Unidos. Mas, aos poucos, vai chegando também ao Brasil. E não é para menos. Afinal, motivos para isso não faltam:

  • O trabalhador brasileiro está mais sujeito ao descontrole financeiro do que o americano. De modo geral, ganha menos, recebe menos educação formal e tem menos acesso a serviços financeiros de qualidade.
  • Ajudar os funcionários a ter mais controle financeiro não precisa custar caro para as empresas.
  • O retorno desse investimento acontece de diversas formas diferentes.

Ao longo desse texto vamos detalhar cada um desses pontos.

Pesquisa

Nosso amigo Pedro Vieira apresentou, durante o programa, os resultados de uma pesquisa feita nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, 46% das pessoas acham que a falta de dinheiro é o grande fator de stress no dia a dia.

Os outros fatores citados ficaram bastante distantes dos problemas financeiros: 17% afirmam que o trabalho é a grande fonte de stress, 15% citaram os relacionamentos afetivos, 14% os problemas de saúde e 8% mencionaram outros motivos.

Se a falta de controle financeiro afeta tanto a vida das pessoas, evidentemente interfere em seu desempenho no trabalho. Afinal, por melhor profissional que alguém seja, é difícil se desligar totalmente das preocupações pessoais para se dedicar de corpo e alma ao trabalho.

E no Brasil?

Uma pesquisa deste tipo, se feita no Brasil, provavelmente trará resultados um pouco diferentes. Problemas de segurança pública, por exemplo, certamente são citados por muitos entrevistados, especialmente os que vivem em cidades grandes e médias. Mas os problemas financeiros têm destaque também.

Em primeiro lugar, porque o trabalhador brasileiro ganha menos do que os de países desenvolvidos. Os salários são menores e, por isso, os gastos para a simples sobrevivência representam uma fatia maior dos rendimentos das famílias.

Além disso, o Brasil é um país mais instável que outros. A economia é muito sujeita a crises, o que afeta o mercado de trabalho como um todo.

Soma-se a isto o fato de o brasileiro receber menos educação formal. Isso dificulta tudo. Faz, por exemplo, com que a pessoa não tenha familiaridade com números. Mesmo que o controle financeiro não exija da pessoa muito mais do que somar e subtrair, muitas pessoas têm aversão à matemática.

A pouca educação formal faz também com que algumas pessoas não se informem corretamente sobre seus deveres e direitos, não compreendam as condições dos serviços que contratam e não busquem ter padrões de organização em suas vidas.

Por tudo isso, as empresas podem e devem estar atentas a eventuais dificuldades de seus colaboradores em relação ao controle financeiro, e se prontificar a ajudá-los.

Controle financeiro: o que as empresas podem fazer?

Existem várias iniciativas que as empresas podem adotar para ajudar seus colaboradores a ter mais controle financeiro. E muitas delas podem custar bem pouco.

O primeiro passo, antes de fazer qualquer coisa, é conhecer os funcionários. Saber como anda sua vida financeira e identificar eventuais problemas que possam estar acometendo a alguns ou vários deles.

Isso pode ser feito de várias formas. Desde simples conversas informais no dia a dia até eventos mais estruturados, como uma palestra sobre gestão de finanças pessoais. A melhor forma vai depender do perfil da empresa e dos funcionários.

A partir daí a empresa poderá mapear a situação, identificar problemas e pensar em soluções adequadas. Que também poderão ser de diferentes formas, quer ver?

Palestras

Uma palestra inicial pode incentivar os colaboradores a se interessarem pelo tema ou, se for o caso, a externarem suas principais dificuldades no controle financeiro.

Como o assunto é muito extenso, depois a empresa pode programar outras palestras, com temas específicos, como orçamento familiar, crédito, endividamento, investimentos, aposentadoria, entre outros. Algumas horas de informação sobre esses assuntos podem causar um efeito surpreendente.

Cursos

Alguns temas são mais bem assimilados se tratados sob a forma de cursos, com atividades práticas, discussões, reflexões em conjunto. Uma sala de aula, com menos pessoas que em uma palestra, e maior proximidade entre elas, pode ser um ambiente muito rico para a criação de soluções.

Os cursos poderão ser ministrados por gente da própria empresa – caso haja pessoal capacitado para isso – ou por outros profissionais especializados.

Aplicativos

Há empresas – geralmente de porte médio ou grande – que patrocinam aplicativos e ferramentas de controle financeiro para seus colaboradores.

Pode parecer muito complexo e caro, mas não precisa ser. Ferramentas simples, como uma planilha de controle financeiro, podem ajudar muita gente a se organizar. Aplicativos com recursos básicos, como alertas de vencimento de boletos, podem evitar multas e contratempos. Ou calculadoras que ajudem a pessoa a estimar quanto precisam poupar por mês para alcançar um objetivo, por exemplo, já são um ótimo estímulo à poupança e ao planejamento de médio prazo.

Programas internos

Algumas empresas criam programas internos visando participar mais ativamente da vida financeira dos funcionários.

Algumas grandes empresas têm Entidades Fechadas de Previdência Complementar – EFPC, os chamados Fundos de Pensão. Mas empresas menores podem estimular os funcionários a aderirem a planos de previdência privada, por exemplo. Como forma de estimular e demonstrar comprometimento com a causa, elas podem até contribuir com valores extra, de acordo com o volume de dinheiro que o próprio funcionário deposita. Por exemplo, para cada R$ 100 que o funcionário investe, a empresa deposita mais R$ 50.

A empresa não precisa necessariamente aderir a um plano de previdência privada formalmente estabelecido. Ela pode criar suas próprias formas de estimular a poupança e o investimento.

Consultorias

Há empresas que contratam profissionais para prestar consultorias individuais, ou para pequenos grupos, em sua equipe. Isso pode ser muito útil e adequado, já que algumas situações na vida são bastante particulares e não podem ser generalizadas. Imagine uma empresa de médio porte, que tem em seus quadros alguns funcionários que vão se aposentar dentro dos próximos meses. Ou que foram obrigados a mudar de cidade por causa do trabalho. Ou que vão sair da casa dos pais e se casar em breve. Consultorias sob medida para essas situações tão especiais podem ser muito bem vindas.

controle financeiro

Caso real

Na conversa com o Pedro, falamos sobre uma empresa norte-americana que criou um programa assim. Era uma companhia de grande porte, tinha mais de 1800 motoristas. Toda semana a empresa depositava um determinado valor para cada um deles, em uma conta acompanhada por ela própria. Os funcionários poderiam gastar o dinheiro, se quisessem. Mas, se preferissem não gastar, para cada dólar poupado por eles, a empresa depositava mais 1 dólar.

Isto é o que o economista Richard Thaler, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2017, chama de empurrãozinho. Quem acompanha o blog já nos ouviu falando sobre ele.

Se a empresa simplesmente se prontificasse a depositar um valor igual ao que o funcionário depositasse por sua própria atitude, possivelmente não funcionaria tão bem. Mas se a empresa deposita previamente o dinheiro e se prontifica a aportar valor equivalente ao que o funcionário deixar na conta, o efeito é outro. Este é o tal empurrãozinho do Thaler.

O que a empresa ganha com isso?

Boazinha essa empresa, né? Bem, pode ser. Não a conheço suficientemente bem para afirmar. Mas que, além de beneficiar seus funcionários, a empresa pode beneficiar muito a si mesma com essa atitude, isso eu afirmo sem pestanejar. E de várias formas diferentes. Quer ver?

Mais rendimento, menos acidentes

Já vimos que descontrole financeiro é apontado pelas pessoas como uma importante fonte de stress, certo? Bem, várias pesquisas – além do nosso senso comum – apontam que funcionário estressado rende menos.

A pessoa estressada dorme pior. E, cansada, tem menor poder de atenção. Além disso, tem sua mente ocupada por problemas. Assim, tem menos condições de se concentrar no trabalho. Com isso, o rendimento cai.

Pessoas estressadas se acidentam mais. A empresa de que falamos há pouco percebeu que, entre seus 1800 motoristas, aqueles que passavam por problemas de descontrole financeiro se envolviam mais em acidentes.

E, finalmente, pessoas estressadas têm sistema imunológico mais debilitado. Com isso, adoecem mais e faltam mais ao trabalho.

Por tudo isso, não é exagero afirmar que cuidar do stress do funcionário pode melhorar seu rendimento.

Orgulho, gratidão, motivação

É muito bom conhecer histórias de empresas que têm iniciativas louváveis com seus funcionários, certo? Passamos a admirá-las. Agora imagine trabalhar em uma empresa dessas. Além do benefício material, fazer parte de uma entidade assim gera um sentimento de orgulho na pessoa.

Além do orgulho, outro sentimento que nasce dessa relação é a gratidão. O funcionário tem mais boa vontade em demonstrar aquele interesse extra, um pouco além do que é esperado dele, como resposta à atitude da empresa, que também vai além do que se espera.

É claro que tudo isso pode parecer bobagem aos olhos das pessoas que acham que orgulho e gratidão são sentimentos em vias de extinção no mundo corporativo. De toda forma, teorias consagradas da Administração apontam estes fatores como capazes de produzir a motivação real e duradoura – mais do que fatores materiais, como salário e benefícios.

Incentivo para permanecer

Seja pelos fatores materiais, seja pelos motivacionais, é certo que programas desta natureza incentivam o funcionário a permanecer na empresa. E isso é muito benéfico para ela. Demissões, recrutamento, seleção e treinamento são processos caros. Além disso, o funcionário que sai leva consigo experiência e cultura. Perder isso sai caro para a empresa. E se isso for parar nas mãos da concorrência, pior ainda.

Assim, tudo o que for motivo para que o funcionário queira ficar acaba sendo bom para a empresa.

Outro caso real

Meu primeiro emprego, aos 17 anos de idade, foi em uma pequena empresa de ônibus que explorava linhas intermunicipais em Minas Gerais. Trabalhei lá durante 7 anos.

Era uma empresa familiar. Uma das suas características era proporcionar boas condições de trabalho aos funcionários. Por exemplo, pagando salários acima da média do mercado. Mas não era só isso. Havia estímulos à capacitação e ao crescimento profissional, bons canais de comunicação entre patrões, gerentes e demais funcionários, flexibilização nas condições de trabalho, entre outras vantagens.

No meio da década de 1980 o Brasil vivia um processo de hiperinflação. Se hoje nos assustamos quando a inflação chega a 10% anuais, naquela época era comum que ela chegasse a 30% mensais. Como um trabalhador de baixa renda e pouca instrução conseguia se organizar em condições assim? A resposta é: não conseguia.

“Caixinha”

Um dos donos da empresa teve a ideia de criar uma “caixinha”. Era uma pequena cooperativa de crédito informal, à qual os funcionários poderiam aderir ou não – mas a maioria aderia.

Todos os meses era descontado um pequeno valor no salário de cada funcionário – algo próximo a 1% do salário. O volume total descontado era mantido em uma Caderneta de Poupança e usado para fazer empréstimos aos próprios funcionários. Ao final do ano, o lucro obtido com os empréstimos era incorporado ao capital de cada funcionário na tal Caixinha.

Vale lembrar que, à época, pouca gente tinha conta em banco, principalmente a população de baixa renda. A Caixinha, então, promovia não apenas acesso ao crédito, mas ainda fazia isso com taxas muito mais baixas do que os bancos ofereciam.

Para muitos funcionários, esse era o primeiro contato com noções básicas de poupança, investimento, crédito e planejamento financeiro, além de ser seu primeiro acesso a serviços “bancários”.

É importante destacar que o que estou relatando não é uma sugestão para nenhuma empresa, por um simples motivo: é proibido. Como eu disse, tratava-se de uma cooperativa de crédito, instituição financeira que precisa de autorização do Banco Central para funcionar, coisa que os donos da empresa nunca se preocuparam em pedir. Daquela forma a Caixinha era, portanto, ilegal. Só que ninguém sabia disso – nem os próprios donos, creio.

Quando a empresa foi vendida, a primeira atitude dos que a compraram foi extinguir a Caixinha. Este foi um – entre muitos – dos motivos de tristeza dos funcionários. Estavam saindo do seio de uma grande família, que incluía educação, afeto e fraternidade na rotina profissional , e caindo em uma empresa mais fria e pragmática.

Concluindo

Bem, esse foi o tema da nossa conversa. No podcast falamos ainda mais. Contamos um pouco da experiência do Educando Seu Bolso com empresas que se preocupam com seus funcionários.

Esta, aliás, é uma das nossas especialidades. Frequentemente fazemos palestras e promovemos cursos em empresas que buscam mais educação financeira para seus funcionários. Se você é empresário, gerente, se trabalha com Recursos Humanos, ou mesmo se for funcionário, pode contar conosco. Estamos prontos para promover eventos deste tipo, para elaborar um plano de orientação e acompanhamento financeiro para sua equipe, para prestar consultorias especializadas sob medida. Enfim, o que sua empresa precisar.

Cuide bem do clima da sua empresa. Isso passa também pela educação financeira da equipe. Os bons resultados dessa medida vêm de diversas formas.

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