Fundos de investimento com taxas abusivas. Fuja!

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Reportagem divulgada recentemente mostra que mais de 1,2 milhão de brasileiros têm dinheiro em fundos de investimento cujo retorno é menor que a taxa de administração cobrada pelo banco. Este foi o tema da nossa conversa desta semana com o Pedro Vieira, da Rádio Inconfidência, no programa Em Boa Companhia.

O que é um fundo de investimento?

Para você, que não sabe direito o que é fundo de investimento, apesar de ter dinheiro aplicado em um deles, aqui vai uma breve explicação.

Fundos de investimento são um tipo de condomínio. Sim, parecido com os edifícios. Em um condomínio imobiliário, cada proprietário – condômino – é dono de uma ou mais unidades – sejam salas, lojas, apartamentos etc. Os condôminos contratam um síndico para gerenciar os recursos e realizar tarefas, como limpeza, manutenção e segurança. Para isso, pagam uma taxa, geralmente proporcional à quantidade e tamanho de suas unidades.

Um fundo de investimento é parecido. A diferença é que o condomínio imobiliário normalmente não visa lucro aos condôminos, apenas bem estar. E o síndico, às vezes, não recebe nada pelo serviço.

Nos fundos de investimento, os condôminos são chamados de cotistas. As unidades são as cotas. Os síndicos são os gestores. A taxa de condomínio é a taxa de administração do fundo, e é a remuneração do serviço do gestor.

O objetivo dos fundos de investimento é obter retorno financeiro para os cotistas. A forma como ele se presta a fazer isso deve estar muito bem definida no regulamento do fundo. É lá que vão estar descritos os tipos de ativos em que aquele fundo pode aplicar, a quantidade de dinheiro que o gestor pode colocar em cada tipo, as regras para entrada e saída – aplicação e resgate –, os custos. Tudo bem detalhado e transparente. Além do regulamento, há também o prospecto e a lâmina, que são documentos em que são apresentadas as principais informações sobre o fundo. Desta forma, o investidor pode ler mais rapidamente e comparar um fundo com o outro.

Vários tipos

Existem várias formas de se classificar os fundos de investimento. Por exemplo, pelo tipo de ativos em que eles aplicam. Outra forma é pelo perfil de risco dos ativos.

Quando um investimento oferece baixo risco, ele oferece também rentabilidade modesta, ou baixa liquidez – isto é, o dinheiro fica “preso”, a pessoa não pode contar com ele durante um tempo. São considerados de baixo risco os ativos de renda fixa, como títulos públicos federais e alguns títulos privados. São adequados para fundos com perfil conservador.

Para obter rentabilidades melhores, os gestores precisam investir parte dos recursos do fundo de investimento em ativos mais arriscados, como ações e derivativos. Fundos que se expõem a um pouco de risco são chamados moderados. E os que se expõe a muito risco são chamados  agressivos.

Pronto. Esse era o ponto a que eu queria chegar, para poder voltar ao assunto central do podcast.

Taxa de administração

Os fundos de investimento listados na reportagem são considerados conservadores. Eles não requerem grandes malabarismos, nem tanta dedicação por parte dos gestores.

Não são, por exemplo, como fundos de ações, que requerem uma equipe experiente e dedicada em tempo integral a apurar e analisar as oportunidades de mercado, e a tomar decisões rápidas. Uma equipe experiente e dedicada, evidentemente, custa caro.

Mas, sinceramente, gerenciar ativos de renda fixa não justifica cobrar taxas de administração absurdas. Não estou desqualificando o trabalho dos gestores, mas sim falando do que é ou não razoável.

A taxa de administração é cobrada anualmente sobre todo o patrimônio do fundo – e não apenas sobre sua rentabilidade – como forma de remunerar o gestor pelo seu trabalho. Existe fundo cobrando 5,5% de taxa, para dar um retorno equivalente ao da taxa Selic!

Vamos colocar em números. O investidor aplica R$ 10 mil em um fundo. Dali a 1 ano, o dinheiro dele rendeu 6,75%. Só que o fundo cobra 5,5% de taxa, então sobram apenas 1,25% para o investidor!

Não é estranho? O dono do dinheiro ganha 1,25% e o gestor ganha 5,5%! E para fazer um trabalho que, sinceramente, é bem mais simples que a de muitos outros gestores de fundos por aí.

E se levarmos em conta o Imposto de Renda, que nesse caso, é de 20% do rendimento, o investidor vai ficar com apenas 1% líquido, o que é menos que a inflação prevista para o período. Isto é: a pessoa deixa de consumir algo hoje, para poupar e poder consumir mais no futuro. O que acontece? Ela consome menos, já que a inflação é maior que o rendimento do fundo.

Mas quem aplica nesses fundos de investimento?

Para aplicar em um fundo caro desses a pessoa deve ser muito desinformada, não? Devem ser pessoas que não estudaram, mal sabem ler e são facilmente enganadas, certo?

Errado.

Nosso amigo Pedro contou que ele mesmo aplica em um desses fundos de investimentos caros. Aliás, foi muito legal da parte dele contar isso no programa, pois muita gente tem vergonha de contar desvantagem. Pedro, que tem estudo, é jornalista, trabalha em uma das principais rádios do país e está sempre perto da notícia, acabou caindo em uma cilada dessa…

Mas como uma pessoa esperta assim aplica em um fundo tão ruim? Bem, pela nossa experiência de anos lidando com pequenos investidores, podemos listar algumas possibilidades.

Vamos a elas:

  • O dinheiro estava parado na conta, o banco foi lá e aplicou. Bem, a instituição financeira não pode fazer isso sem a autorização do cliente. Acontece que muitas incluem no contrato de abertura da conta uma cláusula que permite que ela invista o dinheiro sem que o cliente precise comandar cada aplicação. Normalmente elas fazem isso em fundos com resgate automático. A maior parte dos clientes acha aquilo uma grande vantagem, pois seu dinheiro nunca fica parado, sempre está rendendo alguma coisinha. Faz sentido. O problema é que rende uma coisinha para o cliente e uma coisona para o banco.
  • O cliente nem olhou regulamento, prospecto, lâmina, nada disso. Foi lá e aplicou. Situação muito comum. A pessoa tem R$ 10 mil para investir, entra no site, escolhe uma aplicação cujo valor mínimo é R$ 10 mil – achando que é a mais adequada para ela. E não se preocupa características importantes, como taxa de administração.
  • O gerente recomendou. Infelizmente acontece com frequência maior que o aceitável. Seja por desconhecimento, seja por má fé mesmo, muitos gerentes recomendam aos seus produtos ruins. Fundos de investimento caros, consórcios ruins ou os malfadados títulos de capitalização, não é raro vermos micos sendo empurrados para o colo dos clientes mal informados.

Fique de olho!

Bem, se isso aconteceu com o Pedro, pode acontecer com qualquer um. Por isso, recomendamos que todos os que aplicam em fundos de investimentos deem uma olhada no prospecto do fundo. Verifique a taxa de administração. Existem bons fundos de investimento em renda fixa com taxas entre 0,5% e 1%. Se o seu cobra mais que isso, sinal amarelo! Se está na casa dos 2,5%, 3% ou até mais, sinal vermelho! Recomendamos procurar outro! Compare com outros fundos do seu banco. Compare também com outras possibilidades fora do seu banco.

Alguém dirá: “Ah, comparar com outros fundos do meu banco, tudo bem. Mas procurar em outros bancos dá muito trabalho”. Sinceramente, em minha opinião o que dá trabalho é perder dinheiro. Mas ok, sabemos que muita gente pode não saber como começar. Vamos ajudar.

Sempre falamos aqui no blog sobre nosso Simulador de Investimentos em Renda Fixa. É a maneira mais fácil de você saber como obter o melhor rendimento para a quantidade de dinheiro e tempo que você tem disponíveis. Ele é suficiente para você comparar o rendimento do seu fundo de investimento com o que há de mais rentável em renda fixa.

Ok, mas você quer algo mais arrojado que a renda fixa? Já tem conta em corretora de valores? Há muitas boas corretoras que não cobram nada para você se tornar cliente, ou para realizar operações simples, como o Tesouro Direto, por exemplo. E elas geralmente têm uma sessão dedicada aos fundos, onde você pode ter acesso às principais informações e comparar um com o outro. É uma forma prática de não ficar preso a uma só instituição financeira.

Quem quer informações completas pode também acessar a Central de Sistemas da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, a autarquia responsável pela regulamentação e fiscalização dos fundos.

fundos de investimento

Tesouro Direto

Quem acompanha o Educando Seu Bolso sabe que já falamos muito sobre Tesouro Direto por aqui. Em tempos de Selic baixa, ele ainda é uma boa aplicação? É, sim. É claro que ele não rende os mesmos 14%, ou mais, que rendiam alguns anos atrás. Mas, por outro lado, a inflação também não é mais de 10% como era antes. Então o ganho real ainda é bastante razoável.

Seu banco tem uma corretora que te permite aplicar no Tesouro Direto? Bem, antes de usá-la, verifique as taxas que ela cobra. Algumas corretoras de banco cobram taxas por operações simples. E há muitas corretoras independentes boas – até melhores que as de bancos – que não cobram nada.

Coisas do Brasil

Como disse o poeta, “O Brasil não é para principiantes”. Falando especificamente sobre o mercado financeiro, há coisas que só acontecem por aqui, e que um estrangeiro tem dificuldade de entender.

Nossa cultura inflacionária, por exemplo, está cada vez mais distante, já que a hiperinflação foi derrotada há mais de 20 anos. Mas nossa passividade, ainda hoje, diante de seguidos reajustes em preços de produtos – como o dos combustíveis, recentemente – mostram que essa cultura não está totalmente sepultada.

O mesmo ocorre com nossa relação com taxas de juros e de rendimentos. Consideramos normal que a taxa básica de juros seja superior a 10% ao ano. É motivo de surpresa que o governo venha conseguindo mantê-la abaixo dos 7%. Da mesma forma, quando vemos que os rendimentos do Tesouro Direto caíram para a faixa de 5% ao ano, mais inflação, consideramos pouco.

Por que estou dizendo isso tudo? Porque isso explica parte do problema das taxas de administração abusivas de alguns fundos de investimento. Estamos mal acostumados. Achamos normais números que, em outros países, causam espanto. É hora de parar com isso.

Caso a inflação e a taxa Selic permaneçam em níveis baixos durante um bom tempo, é possível que a cultura financeira do brasileiro mude. Que comecemos a valorizar cada ponto percentual de diferença em taxas de juros ou de rendimentos que nos são oferecidas.

Então vamos?

É hora de começar, desde já. Uma das missões do Educando Seu Bolso é… educar! Incentivar o leitor a deixar de lado o comodismo, a pesquisar, planejar, recusar produtos e serviços financeiros ruins e caros, mudar de instituição, aprender coisas novas.

O podcast de hoje fala, basicamente, sobre oportunismo e falta de planejamento. De um lado, pessoas distraídas, acomodadas ou mal informadas; do outro, pessoas se aproveitando disso. Resultado: de um lado, pessoas pagando caro achando que estão ganhando, e do outro, pessoas ganhando dinheiro fácil.

Chega de pagar Bolsa Banqueiro! Verifique as condições dos seus investimentos. Use nosso Simulador para saber a quantas anda o mercado. Visite o Portal do Investidor oferecido pela CVM. Pesquise. Procure uma boa corretora, abra uma conta e conheça os produtos disponíveis além dos fundos práticos – e caros – oferecidos pelo seu banco.

A partir do momento em que os clientes se mexerem, os fornecedores se mexem também. Principalmente em um momento em que mais e mais fornecedores têm entrado no mercado financeiro. Fica aqui nosso convite: mexa-se. Nós garantimos que vale a pena.

 

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