“Capitalismo: modo de usar” e educação financeira

“Capitalismo: modo de usar” e educação financeira

Na semana passada fui às livrarias – infelizmente às poucas de rua que ainda restam em Belo Horizonte – comprar o livro “Capitalismo: modo de usar”, do economista Fábio Giambiagi (ainda sou adepto dos livros de papel). O livro, de leitura simples e direta, aborda a estranheza e dificuldade dos brasileiros para lidar com o capitalismo. “O Brasil não gosta do sistema capitalista”, registra numa das epígrafes do livro. Entre ignorância, falta de informação, viés ideológico, o autor apresenta ideias de como a forma de organização econômica funciona, ainda que bastante imperfeita, tentando desmistificar seu “modo de usar”.

Só para reforçar o argumento do livro, deu-se a inusitada situação comigo: numa das livrarias a que sou mais assíduo, pedi o livro. Como reposta, a livreira: “ah, o livro, eu até conheço, mas é da Editora Campus, e a distribuição dela está muito ruim, eu não tenho não”. Mas, continua ela, “sobre o capitalismo, acabou de sair o livro do filósofo marxista esloveno Slavoj Zizek, ‘Problema no Paraíso – do fim da história ao fim do capitalismo’”. A intenção da livreira era legítima. Talvez até pedagógica, ao me sugerir um livro muito mais crítico, na linha, “coitado, ele não sabe o que está comprando”. Mas eu sabia sim. Agradeci, e sai um pouco constrangido da livraria. Acabei adquirindo o E-book mesmo.

Caros amigos leitores, não é objetivo do post fazer apologia do capitalismo. O sistema também gera significativas distorções e desigualdades, e leituras igualmente críticas têm lugar na minha biblioteca.  Mas a constatação feita pelo Fábio Giambiagi é muito adequada: temos uma brutal estranheza no capitalismo. E, “enquanto o fim dele não chega” e naquilo que mais interessa ao blog, o processo de educação financeira torna-se ainda mais penoso e lento. Não por outra, o autor tem um capítulo específico no livro sobre educação, que se chama “o analfabetismo financeiro”. Não preciso dizer que recomendo a leitura.

Ainda que não fosse porque o capitalismo igualmente produz riqueza, inovação, crescimento e oportunidades, conhecer o sistema funcionando e não negá-lo ou ignorá-lo, assim em uma linha bem pragmática, fará você se proteger das armadilhas do sistema e aproveitar aquilo que ele pode oferecer de melhor. Como no futebol, aquele “que não conhece a regras, acaba ficando em desvantagem diante dos outros jogadores que sabem melhor o que pode e o que não pode ser feito dentro das quatro linhas do campo”, diz Giambiagi.

Só para citar duas situações nas quais o conhecimento do sistema pode proporcionar educação financeira: (a) armadilhas quanto ao consumo consciente. Para entender a taxa de juros embutida em uma compra parcelada. Para compreender as vantagens da poupança e da postergação da compra; (b) aproveitar o que sistema pode lhe oferecer. Deixá-lo trabalhar para você, com os juros compostos. Favorecer planejamento e previsibilidade com bons investimentos e segurança na aposentadoria.

O autor cuida, no capítulo sobre o analfabetismo financeiro, de um teste básico – que reproduzo e ofereço ao leitor do blog – para avaliar o grau de conhecimento financeiro, uma espécie de métrica. Para o teste mais amplo, clique aqui. Para o gabarito, clique aqui. Como diz meu colega Fred no blog, boa parte do traquejo financeiro é capaz de ser resolvido em continhas de papel de pão.

1. Suponha que você tenha R$ 100 em uma poupança e que a taxa de juros seja de 6% a.a. Cinco anos depois, quanto você acha que teria na poupança se tivesse deixado o dinheiro crescer?

(a) Mais do que R$ 106

(b) Exatamente R$ 106

(c)  Menos do que R$ 106

(d) Não sei/não quero responder

 2. Imagine que a taxa de juros de sua poupança seja de 1% a.a. e que a inflação seja de 2% a.a. (quem dera?) Depois de um ano, com o dinheiro nessa conta, você estaria apto a comprar.

(a) Mais do que hoje

(b) Exatamente o mesmo de hoje

(c)  Menos do que hoje

(d) Não sei/não quero responder

 3. Para você, a seguinte afirmação é verdadeira ou falsa? Comprar ação de uma única empresa em geral oferece um retorno mais seguro do que um fundo de ações.

(a) Verdadeiro

(b) Falso

(c)  Não sei/não quero responder

As repostas certas são: 1.a; 2.c; 3.b.

Na pergunta 1, o sistema trabalha a seu favor, com os juros compostos. Com uma taxa de 6% a.a., em 5 anos a taxa composta é de 33,8%. Já pensou o que ele pode fazer em investimentos com juros mais altos?

Na pergunta 2, como a inflação é maior do que a taxa de juros, há perda real do poder aquisitivo. Novamente, é importante pensar onde você destina seus investimentos. A poupança pode se revelar o pior deles!

Na pergunta 3, o que estamos discutindo é o risco dos investimentos. Apostar todos os investimentos em uma única ação pode até ser muito bom. Mas também pode ser muito ruim. Por isso, a indicação é sempre diversificar, de forma a distribuir o risco entre diversas opções.

Nos EUA, o teste feito em 2009 revelou que só 65% acertaram a primeira questão; 64%, a segunda. E 52%, a terceira. E apenas 30% acertaram simultaneamente as três questões. E no Brasil? Qual teria sido o resultado? Abraço e até a próxima!

Autor

Leandro Novais
Leandro Novais é professor adjunto de Direito Econômico na UFMG. Em seu espaço, pretende aliar um pouco de direito, inovação e economia, além de uma pitada de economia comportamental, para ajudar o leitor na sua compreensão econômica e nas suas escolhas financeiras. Seu lema: "o mundo a partir das escolhas de cada um". Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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