Férias

Férias

“Summertime
And the livin’ is easy
Fish are jumpin’
And the cotton is high”
(George Gershwin, “Summertime”)

 

 

Estou em férias desde o natal. Tempo para descansar e estar nas melhores companhias possíveis. Em viagem ao Rio de Janeiro, fiquei reparando no comportamento de um casal com suas finanças pessoais. Ele, mais sistemático, prefere pagar tudo no cartão de crédito. Guarda os recibos na carteira para depois lançar em uma planilha. Sujeito controlado, mas longe de ser pão duro. Ela, alma leve, fala tranquila, não se preocupa com essas coisas, e ri carinhosamente do jeito dele.

Ela me disse que não tem paciência para ficar controlando essas coisas. Normalmente prefere pagar as despesas com cartão de débito. Não tem o hábito de olhar extratos bancários. Admite que, às vezes, passam-se muitos dias e, quando olha, já não se lembra mais de onde fez muitas das despesas.

Ele tem dois cartões de crédito, um vencendo no início do mês e outro no meio. Usa cada cartão na época certa para aproveitar melhor o prazo de pagamento. Diz que, antes de a fatura chegar, já sabe exatamente quanto vai pagar e quanto gastou com cada tipo de despesa – alimentação, diversão, gasolina, roupas. Jura que manter esse controle não lhe dá trabalho, que já está acostumado, é um hábito antigo. Costuma anotar na planilha até os gastos em dinheiro. Nas férias, porém, abre mão desse hábito. Sacou um dinheiro antes da viagem, lançou o valor na planilha como “Férias” e não se preocupou em anotar nada. Como eu disse, não é um sujeito pão duro, nem escravo dos próprios controles.

Ela tem um hábito: pechincha onde pode pechinchar. Na praia não havia um só ambulante que conseguia lhe vender algo pelo primeiro preço cobrado. “Quanto é o picolé, moço? R$ 6? Não. Tá caro. Ontem paguei R$ 4”. E acabava pagando os R$ 4. E assim era com o mate, o milho, tudo o que podia ser pechinchado.

Ele olhava para esse hábito dela admirado e apaixonado. E confessa, “Não sou assim, não sei pechinchar. A coisa mais fácil que existe é tirar dinheiro de mim”.

No dia do réveillon, ele foi sozinho procurar um local para estacionar perto da praia, onde o carro ficaria por mais de 24 horas. Conseguiu uma vaga ótima, na sombra, com o “dono” do ponto, que lhe cobrou R$ 20. Ele achou bom o preço, pois está acostumado a pagar R$ 30 por dois pares de horas, perto do Mineirão, em dia de futebol. Quando contou para ela, quase orgulhoso, ela achou caríssimo. Riram juntos, e vida que segue.

Num restaurante, ela pagou uma conta de uns R$ 140 com cartão. Perguntei se ela conferiu a conta antes de pagar. Disse que sim, “conta de restaurante eu confiro”. Talvez ela fosse como a esposa de um amigo meu, que, segundo o próprio, “economiza no tostão e esbanja no milhão”, mas vi que não é. Moça esperta.

Casal interessante. Ele, sistemático e tímido. Ela, leve e despachada. Encaixam as próprias diferenças. Vão ser muito felizes. Aliás, já são. Inclusive nas finanças pessoais.

Autor

Ewerton Veloso
Ewerton Veloso é bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional e é professor de Administração. Neste espaço, pretende convidar o leitor à organização das suas finanças e à reflexão quanto ao seu comportamento como consumidor e investidor.

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