A opção pelo menor

A opção pelo menor

“O rico cada vez fica mais rico
e o pobre cada vez fica mais pobre.”
(As Meninas, “Xibom Bombom”)

 

Na semana passadacontei o caso do ambulante que vende palhetas de limpador de para-brisa no sinal de trânsito e tem uma máquina que aceita cartões de crédito. Abordei o assunto ressaltando a inovação e a acessibilidade aos meios de pagamento. Hoje, partindo do mesmo caso, vou abordar outro aspecto: a opção por comprar produtos e serviços de pequenos fornecedores.

Um importante problema da sociedade atual é a concentração de renda. Comprar de pequenos fornecedores, em princípio, parece ser uma forma de distribuir um pouco mais a renda. Muita gente tem feito essa opção pelo menor.

Conheço pessoas que preferem comprar seus livros em pequenas livrarias, em vez de comprá-los pela internet ou em grandes lojas de shopping centers. É uma forma de contribuir para que não desapareçam as livrarias tradicionais, um tipo de negócio tão charmoso e importante para a cultura de uma cidade. Mesmo que se pague um pouco mais caro, é uma ação interessante, além de prazerosa – quem gosta de livros sabe como pode ser agradável um papo com um livreiro, durante as compras.

Comprar de pequenos significa, muitas vezes, comprar de fornecedores informais, como nosso amigo vendedor de palhetas. E aqui o assunto começa a ficar um pouco mais complexo.

Estima-se que a economia informal deva movimentar, no Brasil, mais de R$ 800 bilhões em 2014, o que equivale a cerca de 16% do PIB brasileiro. É muito. E é um dinheiro que paga menos impostos que a economia formal, o que pode ser ruim, porque, em princípio, a economia de um país desenvolve-se de forma mais estruturada e organizada quando caminha na formalidade.

É meio inevitável que, num país como o Brasil, parte da economia seja informal. Não podemos esperar que seja emitida uma nota fiscal para cada pé de alface vendido em uma feira livre, cada copo de mate vendido na praia ou cada carro que o lavador lava na rua.

Mas uma parte da informalidade caminha junto da pirataria e do contrabando, e esta deveria acabar. Uma campanha publicitária diz que “quem compra produto pirata financia o crime organizado”. Mas, no Brasil, existe tanta corrupção nos governos e nos outros poderes – sempre existiu, é bom lembrar – que, quem paga impostos, infelizmente também financia o crime organizado. E essa é uma das desculpas que muita gente boa usa para continuar comprando produtos piratas. Mas, que é errado, é.

Comprar produtos em comerciantes informais, sejam piratas ou não, envolve riscos. As leis de proteção ao consumidor não os alcançam, muitas vezes não há garantia de reposição do produto em caso de defeito, a qualidade pode ser duvidosa – já que não há fiscalização adequada. O que pode ser feito é tentar estabelecer uma boa relação com o fornecedor, o que é possível. Muitas vezes, o famoso bordão “la garantia soy yo” funciona perfeitamente bem, pois há comerciantes informais que fazem questão de construir uma reputação de idoneidade e qualidade e, assim, realmente garantir seus produtos.

Enfim, comprar de pequenos fornecedores pode trazer vantagens pessoais e sociais. Tomando-se cuidado com os riscos, pode ser uma postura saudável.

Autor

Ewerton Veloso
Ewerton Veloso é bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional e é professor de Administração. Neste espaço, pretende convidar o leitor à organização das suas finanças e à reflexão quanto ao seu comportamento como consumidor e investidor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *