Tesouro Nacional: vender ou esperar o vencimento?

O baixo desempenho dos investimentos em renda fixa vem preocupando boa parte dos investidores. As pessoas estão acostumadas a ver suas aplicações nessa modalidade rendendo positivamente, nem que sejam juros bem pequenos. Sendo assim, era quase inimaginável pensar em uma variação negativa para aplicações como os títulos do Tesouro Nacional.

No entanto, na semana passada trouxemos aqui o exemplo do Marcelo. Ele estava receoso após notar o rendimento negativo da previdência privada dos pais, gerenciada por ele, no Brasilprev. E na minha conversa com o Pedro Vieira, da Rádio Inconfidência, nós aproveitamos a dúvida de outro ouvinte, sobre o Tesouro IPCA+, para dar continuidade à discussão sobre possibilidades de perda nos investimentos em renda fixa.

No post de hoje iremos abordar de uma maneira mais aprofundada a modalidade de investimento nos títulos do Tesouro Nacional indexados à inflação (Tesouro IPCA+), os riscos que eles apresentam e estratégias para lidar com eles. Além disso, aproveitamos a dúvida de outra ouvinte para esclarecer o conceito de taxa de carregamento nos planos de previdência privada.

A dúvida do Edison

Desde o começo do ano iniciei meus investimentos no tesouro IPCA + 2035 porém, olhando as informações mensalmente eu estou perdendo dinheiro gostaria de confirmar se realmente é isso mesmo.

Ele acrescentou as seguintes informações: o investimento feito foi de R$10.586,44. Ao conferir o extrato viu que agora ele tem R$9.396,32. Ou seja, R$1.200,00 a menos.

Em primeiro lugar gostaria de agradecer ao Edison por enviar esta dúvida. Ela nos dá a oportunidade de falar sobre esse assunto mais uma vez, complementando a conversa iniciada na semana passada.

Segundo, percebe-se que, seja com planos de previdência privada como o BrasilPrev, seja com o Tesouro IPCA +, existe a possibilidade de ter perda de capital mesmo nos investimentos em renda fixa, considerados mais seguros. Não só baixo rendimento, mas também a diminuição do valor inicial, que foi o que aconteceu com o Edison.

Como funciona a modalidade IPCA+ do Tesouro Nacional?

O Tesouro IPCA+ é uma forma de aplicação no Tesouro Nacional em que o investidor recebe uma taxa de juros pré determinada mais o índice inflacionário IPCA.

O título comprado pelo Edison é o Tesouro IPCA + 2035. O número indica o ano em que ele vence, isto é, 2035. Então, no começo do ano, quando o Edison comprou o título, ele estava rendendo a inflação mais 4,8% ao ano. Esta era a remuneração oferecida pelo Tesouro Nacional na época. Isso significa que o título comprado em 2018 vai render até 2035. Ao final desses 17 anos, o investidor receberá o equivalente à inflação mais 4,8%, por cada ano. A outra opção é vender o papel antecipadamente, ou seja, antes de 2035, ao preço de mercado. Nesse caso, o que acontece?

Os riscos dos títulos do Tesouro Nacional indexados à inflação

Contextualizando

Para entender como é possível perder dinheiro nesse tipo de aplicação é preciso voltar o olhar para o contexto da economia nacional. No começo do ano o céu estava azul, limpo. Estimava-se que o PIB do Brasil iria crescer 3%, o dólar estava custando em média R$3,40. A bolsa estava a 80 mil pontos… O próximo presidente iria fazer todas as reformas e o Brasil iria reduzir o déficit. Uma maravilha! O mercado estava de bem com a política e os rumos do país.

Passados 3 ou 4 meses, tudo mudou da água para o vinho. A bolsa de valores caiu em mais de 10 mil pontos. O Dólar subiu para cerca de R$4,00. E uma onda de desconfiança muito grande pairou sobre mercado.

E o título do Edison nessa história?

Bom, o Edison comprou juros. Diferentemente do Tesouro Selic, que não varia negativamente nunca, rendendo sempre uns centavinhos aqui e ali, todo dia, de acordo com a Selic, o título do Tesouro Nacional indexado à inflação tem um pouquinho de risco. Não é um risco muito alto, de perder todo o dinheiro do dia para a noite. São riscos momentâneos.

Existe um valor fixo para receber em 2035, mas o trajeto até lá é tortuoso. Há momentos de mais ganho, do que os 4,8% de juros além da inflação. E há momentos de menos ganho, que é justamente o momento que estamos vivendo.

Agora o valor dos títulos dele é de R$9.396,32 porque o mercado está negociando esse mesmo título hoje pagando inflação + 5,7% ao ano. Logo, o ativo oferece juros maiores do que esse mesmo papel no início do ano, rendendo mais do que o foi comprado pelo nosso leitor, fazendo com que o dele se desvalorize.

É como se você comprasse um carro e, antes mesmo de tirá-lo da concessionária, a montadora lançasse ao mesmo preço um carro com motor muito mais potente e com muitos outros incrementos. Então o carro que você acabou de comprar automaticamente se desvaloriza.

Refazendo as contas com a Calculadora do Tesouro Nacional

O site do Tesouro Nacional oferece uma calculadora que permite ao investidor fazer simulações a avaliar o comportamento dos títulos. O próprio Edison poderia ter feito essa simulação para conferir seu extrato. Fica a dica para o leitor, que também pode fazer o mesmo.

Usando essa ferramenta do Tesouro Nacional para refazer a conta, foi possível concluir que realmente é isso mesmo. O valor do título em questão hoje é esse mesmo, de R$9.396,32. Portanto, momentaneamente existe um prejuízo (que não é uma multa, mas é uma perda). Se for realizada a venda antecipada desse papel, para capitalizar o dinheiro agora, o prejuízo se concretiza em aproximadamente R$1200,00.

De maneira análoga, é como se você investisse num projeto de longo prazo. Por exemplo, a construção de um condomínio. Ao emprestar o dinheiro para a construtora, que no caso é o governo, ela promete te pagar um valor fixo ao final do projeto. Mas se você quiser sair no meio do caminho, vai levar uma multa. Então você pode sair no meio do caminho com um prejuízo, que são esses R$1.200,00, se o resgate for realizado agora.

Essas vantagens oferecidas para quem faz a retirada apenas no final do prazo é mais ou menos parecida com a história do Brasilprev da semana passada. O  Marcelo fez um plano de previdência que tem benefícios no longo prazo. Por exemplo, diluir a taxa de carregamento, não ter o famoso “come-cotas” no longo prazo e de ter uma tabela de Imposto de Renda favorável.

Tem alguém errado?

Não, isso é a lei da oferta e demanda. O valor dos investimentos oscila todo dia. Vez ou outra vê-se notícias sobre o Tesouro Nacional como: “hoje o programa está interrompido porque houve uma volatilidade muito grande”. Às vezes o programa é fechado durante algumas horas durante o dia, porque há uma grande variação nos preços. Quem está errado não é o sistema. Há uma responsabilidade no caso do investidor, de ele mesmo programar o horizonte temporal das suas aplicações.

E se ele for paciente e esperar 2035?

Vamos estimar uma inflação de três ou quatro por cento ao ano durante 17 anos, mais os 4,8% de juros durante 17 anos. O montante final pode dobrar ou até triplicar! Mas se ele quiser tirar o dinheiro agora, vai ter um prejuízo de R$ 1200,00. Então, se realmente for necessário sair no meio do caminho, o ideal é esperar o momento em que o prejuízo seja mitigado.

A importância de planejar o investimento

Nota-se, ou pelo menos pode-se inferir pelo comportamento de checar todo mês o extrato do investimento, que o foco do Edison não está em 2035, mas na rentabilidade mensal de curto prazo.

Então, ao investir em um papel do Tesouro Nacional com um prazo muito longo para o vencimento, a recomendação é que você se faça as seguintes perguntas:

-Sua intenção é realmente fazer uma aplicação de longo prazo?

-Se sim, você está preparado para usar esse dinheiro somente lá na frente?

Vamos supor que esse montante seja uma reserva de aposentadoria para daqui a 17 anos. Então não fique olhando no relógio. Se você está correndo uma maratona, não fique olhando no GPS toda hora. Siga o seu planejamento, olhar no relógio não vai te ajudar. Esse título vai render bastante em 17 anos, quase triplicando o valor inicial e cumprindo seu objetivo de ganhar da inflação em 4,8% e aumentando seu poder de compra no futuro.

No caso do Edison, se a aplicação foi bem feita e se está condizente com seu perfil de risco. Ou seja, se ele não é conservador ao extremo e tolera estas desvalorizações de curto prazo, em benefício de uma rentabilidade maior no final, minha sugestão é que não faça nada. Fique tranquilo!

Tesouro Nacional

A dúvida da Marília

O que é taxa de carregamento nos planos de previdência privada?

Mais uma vez gostaria de agradecer pela excelente pergunta e parabenizar a leitora por se interessar pelos custos que as aplicações financeiras têm.

Essa taxa é descontada dos investimentos na largada. Por exemplo, quando você faz um investimento no plano de previdência de R$100,00, que tem uma taxa de carregamento de três por cento, significa que apenas R$97,00 dos R$100,00 que você investiu vão ser creditados na sua conta de previdência. O banco – ou a seguradora ligada ao banco – que administra esse plano de previdência já abocanha essa taxa de carregamento no momento em que você investe. Assim, a incidência da remuneração passa a ser sobre os R$97.

E existem variações. Além da  tradicional taxa de carregamento na entrada, ela pode ocorrer na saída. Essa é uma taxa de carregamento que se aplica, por exemplo, a quem permanecer no plano de previdência por menos do que dois ou três anos, dependendo do plano e sendo cobrada apenas no final

A percentagem incide sobre o valor. Logo, se o valor cresceu, até o final do prazo essa percentagem vai representar o valor nominal final também maior. Por exemplo: três por cento sobre R$110,00, no futuro, serão R$3,30 e não R$3,00. Assim, o banco faturou trinta centavos a mais. Mas isso é uma maneira de tentar te manter no plano durante algum tempo.

Portabilidade Entre os Planos de Previdência Privada

A dúvida da Marília também traz outras questões. Uma delas é a possibilidade de fazer portabilidade de planos de previdência privada.  A ideia de que é possível pegar o seu dinheiro e levar de uma seguradora para outra está ficando um cada vez mais disseminada. No intuito de não perder o cliente, os bancos ou seguradoras passam a oferecer benefícios para eles não migrem seus investimentos para outras instituições. Um exemplo é o que acabamos de citar: se o cliente permanecer no plano por três anos, pode não pagar a taxa de carregamento, apenas a taxa de administração é cobrada.

Essa taxa gira em torno de 1,5% ou 2%. Está caindo, mas ainda continua relativamente salgada, dependendo do caso. É importante ficar atento não só ao carregamento, mas também à taxa de administração que o plano de previdência cobra.

Conclusão

A partir do estudo de caso que acabamos de apresentar e do momento que estamos vivendo na economia nacional, cabe ressaltar a importância de se alinhar os investimentos às necessidades do investidor.

Existem muitas possibilidades de aplicação. O próprio Tesouro Nacional oferece pelo menos três. Cabe ao investidor analisar qual se encaixa melhor em cada um de seus objetivos financeiros. Ele deve levar sempre em consideração o curto, o médio e o longo prazo. Aqui no Educando Seu Bolso nós oferecemos um Simulador de Renda Fixa gratuito. Ele compara os títulos públicos com alguns títulos privados e até mesmo com a Caderneta de Poupança, e pode te ajudar a traçar estratégias para seus investimentos.

Além disso, é importante frisar que é fundamental ficar atento às taxas e impostos que incidem sobre esses ativos. É bom ter em mente, por exemplo, quais deles são isentos de Imposto de Renda. E é muito importante também avaliar se não existe a possibilidade de migrar para uma aplicação melhor.

Agradecemos mais uma vez a participação do Edison e da Marília. E fica o convite para todos os leitores que quiserem contribuir, tirar dúvidas, ou buscar esclarecimentos: entrem em contato com a gente! Teste as ferramentas e ouça o podcast para saber mais!

Assine nosso Podcast no

CastBox - Download no Google Play

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *