Consórcio de Bitcoin: a que ponto chegamos!

Histórico

Em 11 de outubro passado, já no frisson do momento (mercado de Bitcoin), fui contatado por um número de telefone do interior de SP (DDD 18), por WhatsApp, perguntando se eu tinha interesse em operar Bitcoin. Não faço a menor ideia de onde descobriu meu telefone. Aliás, talvez seja engano ou foi um tiro aleatório.

Respondi, então, que não, agradeci, e a pessoa insistiu em apresentar sua plataforma de negociação. Novamente agradeci, pois não tenho interesse em operar moedas virtuais.

A razão pela qual não tenho interesse em negociar moedas virtuais falarei mais adiante. Dentre as diversas moedas virtuais temos nos dias atuais a Bitcoin como a principal expoente, mas não única.

Bom, depois deste “parágrafo-parênteses”, voltemos ao tema. Com minha resposta, o contato se encerrou. Achava eu, aliás, que tivesse encerrado. Mas surpresas me aguardavam. Em 13 de dezembro de 2017, com a cotação do Bitcoin na casa dos milhares de reais, o mesmo número volta a me abordar. Desta vez, perguntou se eu tinha interesse em participar de um consórcio com 100 pessoas para comprar Bitcoin. Segundo a pessoa, seria “um consórcio legalizado e administrado dentro das normas”. Agradeci novamente e estou até agora me perguntando que normas seriam estas.

Não bastasse a investida anterior, insiste em me abordar para comprar Bitcoin. Agora, através de consórcio. Afinal, entrar no mercado de Bitcoin, montar uma carteira de Bitcoin, era uma oportunidade… Difícil…

O que penso de Bitcoin e outras moedas virtuais

Bom, acho que preciso te contextualizar, leitor, sobre o que penso a respeito de Bitcoin e outras moedas virtuais. Assim como já venderam avestruzes, cotas da Boi Gordo, dentre outros “fantásticos” empreendimentos, acredito que novamente estejamos à frente de uma falácia! Para não dizer bolha, ou pior, pirâmide, picaretagem, estelionato, etc. O que sustenta o mercado de Bitcoin (e outras moedas virtuais), já parou para pensar? Um título de metal é lastreado pelo próprio ativo. Uma ação é uma parte (pequena, é verdade) de uma empresa. Uma moeda convencional (Real, Dólar, Euro, Libra, etc.) é garantida por um país (ou países, como no caso do Euro).

E o que garante a Bitcoin? “La garantia soy yo”, meu amigo! Quem compra Bitcoin está enterrando dinheiro em um ativo sem garantia. Pura especulação! Pode-se ganhar dinheiro com ela? Pode! Claro que pode! Tem muita gente especulando e ganhando fábulas de dinheiro com Bitcoin. Mas eu prefiro ficar de fora. Meu dinheiro foi conquistado com muito suor, e não vou arriscar em algo que eu não veja segurança em investir.

Um caso para fazer um paralelo

Apenas uma história de macacos, que talvez você já conheça, para ilustrar onde acho que isto vai parar:

Havia um vilarejo que tinha muitos macacos próximos a ele. Certo dia um viajante chegou ao vilarejo e se ofereceu para comprar macacos. R$100,00 por macaco. Chamaram-o de louco: como pode comprar simples macacos por R$100,00 cada? Começaram, então, os primeiros a vender macacos ao viajante. E ele realmente pagava R$100,00 por macaco. Como rastilho de pólvora, a notícia circulou pelo vilarejo. E muita gente começou a vender macacos.

Dias depois, com pequena queda na oferta, o viajante passou a oferecer R$200,00 por macaco. Até os mais preguiçosos passaram a procurar pelos macacos. Praticamente acabaram com os macacos da região.

O viajante, então, ofereceu R$500,00 por cada macaco. A última meia dúzia de 5 ou 6 macacos foi vendida por R$500,00 ao viajante, que sempre pagava em espécie. A população sonhava com macacos. Viviam procurando por macacos. A economia local simplesmente parou em função da caçada aos macacos. Em função da caçada aos outrora desprezados, mas agora supervalorizados macacos. Teria “a pedra desprezada” se tornado a “pedra angular”? Será?

A partida do viajante

Já se esperava pela próxima oferta do viajante, quando ele disse que voltaria à sua cidade e retornaria em uma semana ao vilarejo para comprar mais macacos.

O ajudante do viajante, então, matreiramente soltou um boato no local dizendo que ele retornaria pagando mais de R$1.000,00 por macaco. Ato contínuo, se dispôs a “trair” seu amigo e vender macacos do viajante por R$700,00 cada, mas que isso teria que ser feito de forma sigilosa. Formou-se uma fila para comprar macacos por R$700,00…

Imaginaram lucro fácil de pelo menos R$300,00 por macaco. Os mais ricos compraram macacos com recursos próprios. Alguns, pegaram empréstimo para comprar macacos. Houve quem vendesse casa para comprar macacos. Esvaziaram o estoque do ajudante.

Passaram a cuidar dos macacos aguardando o grande retorno. Passados alguns dias, nada do viajante retornar, foram procurar o ajudante para ter notícias do viajante. Mas o ajudante também já tinha viajado. Foi quando os moradores se deram conta que haviam comprado milhares de macacos inúteis a R$700,00 cada, e agora estavam com um enorme mico nas mãos.

Peço desculpas aos macacos e outros micos que, por acaso, tenham se ofendido com a comparação deles a moedas virtuais.

Voltando aos bitcoin, o que vem por aí?

 Geralmente, onde tem dinheiro “grosso” tem gente agindo de má fé tentando tomar daqueles que trabalharam, lutaram, para construir seu patrimônio. Sem entrar no mérito do meu ponto de vista, acima, no caso das moedas virtuais não me parece ser diferente.

 Consórcio de Bitcoin… Quais são as normas? Quem vai fiscalizar isto? Quais os desdobramentos disso? Como garantir a saída (e recebimento do meu dinheiro)? Em que prazo? As cotas serão negociadas em mercado secundário, ou de balcão?

 Qual será o próximo passo? O que mais estão bolando para viabilizar a entrada de mais gananciosos naquilo que vejo como uma bolha?

 Sei que serei bastante criticado por este texto, inclusive pelos meus pares. Entretanto, cumpre-me alertar agora a você, leitor, para que depois não ouça um “eu te disse”… Se você comprou, ainda está em tempo de sair. Se não comprou, pense bem antes de entrar. Eu assistirei de camarote o sucesso ou o fracasso de milhares. Os dados estão rolando. Boa sorte.

Mas vamos dar corda

Bom, apesar de tudo isto que falei acima, em compromisso com você, leitor, para que entenda melhor a “proposta” de consórcio de Bitcoin, estendemos a conversa.

O tal consórcio seria formado por um grupo fechado de 100 pessoas que se uniriam diretamente para comprar Bitcoin. Segundo ele, um consórcio legalizado e administrado dentro das normas. Não foi possível conseguir a definição de que normas estariam sendo seguidas. Também não se falou em custos de administração, ou quaisquer outras taxas, o que levantou certa desconfiança: o que o administrador faria para conseguir arcar com os custos operacionais? Claro: não existe almoço grátis, como já descobrimos. Apesar de só participarem interessados diretos, o administrador teria custos adicionais.

Considerando a oscilação da moeda, acredito que seria difícil saber quanto custaria a cota, ou se acompanharia mensalmente a flutuação dos preços. Isto não foi esclarecido inicialmente, e deveria ser acertado entre os participantes, mas com a sugestão de acompanhar a oscilação do Bitcoin. Entendo que, em qualquer dos casos, os participantes terão um problemão pela frente: ou não terão como planejar seus dispêndios, ou não terão como ter certeza de que conseguirão comprar a moeda. Ou seja, exatamente o caminho inverso do que se espera de um consórcio.

A filosofia dos consórcios

Consórcio, conforme vemos em dicionários, é um substantivo masculino que significa união, associação. É uma forma de se adquirir um bem, móvel ou imóvel, ou um serviço através da formação de poupança em grupo de pessoas físicas ou jurídicas, uma forma de autofinanciamento. Para muitos, é a forma mais viável economicamente de se atingir um objetivo. O consórcio é muito útil para quem não tem disciplina financeira para acumular regularmente o capital para comprar um bem. Especialmente, se for um bem de maior valor relativamente à renda da pessoa.

Note: não estamos defendendo que ninguém se endivide para comprar nada. Pelo contrário, reforçamos que dívidas só devem ser contraídas em último caso. Ultimíssimo (se é que existe esta palavra)! Mas o consórcio geralmente é uma modalidade de crédito com taxas de juros relativamente baixas. Nem se compara com cheque especial, cartão de crédito ou, pior, financeiras. Principalmente as financeiras que emprestam dinheiro até para negativados nos sistemas de avaliação de crédito. Lembre-se que é praticamente impossível obter no mercado aplicações que paguem mais do que empréstimos com grau de risco equivalentes.

Como funciona um consórcio?

A sua forma de funcionamento para compra de um bem, no caso, Bitcoin, é a que segue. Um grupo de pessoas forma uma poupança para compra do bem desejado (Bitcoin). Este pagamento é mensal e se trata de um autofinanciamento. O valor de cada parcela equivale a um percentual acrescido da taxa de administração. Este valor é igual para todas as cotas e pode ser calculado dividindo-se o valor do bem somado à taxa de administração pelo número de pessoas. Este grupo de pessoas é também conhecido por cotistas ou consorciados.

Como pode ter percebido, alguns pontos cruciais da filosofia de um consórcio são afrontados por esta proposta. Por exemplo, a previsibilidade de quanto se pagará em cada parcela. Isto porque a flutuação da cotação de uma Bitcoin impede que se preveja quanto se pagará daqui a um ou dois meses. Quanto mais daqui a digamos, sessenta meses ou seja lá quantos meses forem até o fim do consórcio…

Outros textos sobre consórcios

O blog já publicou, em outras ocasiões, postagens de outros autores tratando de consórcios. Caso queira se aprofundar, seguem as URL de 5 delas. Há outras no blog relacionados ao tema, mas acredito que estas sejam as mais relevantes:

Consórcios valem a pena?

10 razões pelas quais consórcio não é uma boa ideia

Consórcio é uma roubada

Imóvel na planta: Financiamento ou consórcio?

O Gerente responde: devo entrar em um consórcio?

E como ficamos em relação aos consórcios de Bitcoin?

Diante de tantas dúvidas fundamentais e graves, desistimos de evoluir na conversa. Estava complicado. Se em algum momento me passou pela cabeça soltar um “O Gerente Testou”, tive que descartar a ideia.

Segue o alerta: este negócio está cada vez mais estranho e perigoso. Perigoso tanto para operar comprado quanto vendido. Se o leitor ainda não conseguiu entender a razão, proponho um exercício matemático.

Suponhamos que sejam 100 cotistas. Cada um responsável por 1% de Bitcoin por mês, ou seja, cada parcela equivalente a 0,01 Bitcoin. Como o cidadão poderá se programar para provisionar 1% no mês seguinte em algo que flutua tanto? E daqui a 8 anos e 4 meses (se ainda existir Bitcoin), que é o prazo equivalente a 100 meses, então?

Porque não operar vendido?

O leitor mais atento ou incrédulo poderia me perguntar porque, então, eu não opero vendido. Para quem não sabe, “operar vendido” é um jargão utilizado para quem se dispõe a vender algo que não tem apostando na queda do ativo em questão. No nosso caso, o ativo é a Bitcoin.

Se você leu este texto, entendeu meu raciocínio, é possível que a ideia tenha parecido interessante. Principalmente, claro, se você concordou com o raciocínio. O problema, no caso, é que para operar vendido você tem que pagar um percentual a quem “aluga” o ativo. Afinal, quem está alugando para você vender teve que comprar e, enquanto estiver alugado, não poderá vender.

No caso do Bitcoin e de outras moedas virtuais este percentual relativo ao aluguel a ser pago está relativamente alto. Porque? Justamente porque tem muita gente já apostando no dia do apocalipse da Bitcoin. E o valor a pagar é calculado como um percentual da cotação do ativo, que também tem flutuado bastante.

Mas o pior nem é isto: é que não tem mercado consolidado ainda. Isto significa que se você conseguir montar a operação pode ser que não consiga desfazê-la a preços compatíveis com o mercado de Bitcoin. Talvez tenha que pagar bem mais e receber bem menos nesta jogada. Ou pode ser que simplesmente não consiga mesmo.

Aluguel de ações da Vale como referência

Como referência, especialmente para quem acha que ações da Vale não são bons negócios. Para quem acha que sua cotação vai afundar com a crise (?) do minério na China. Ou para os que acham que a regulação vai tornar o negócio da Vale inviável. Talvez, ainda, você tenha outro motivo para achar que a cotação da Vale vai cair. Então segue a dica: aluguel de ação da Vale está girando abaixo de 0,5% ao ano. Sim. Ao ano. Meio porcento ao ano.

Pronto: agora vai ter um monte de gente que vai deixar de ler o fim deste texto achando que descobriram a fórmula da riqueza. Vai ter um monte gente correndo para alugar ações da Vale achando que o aluguel está barato e que as ações vão cair. Não acredito nisso. Não mesmo. E parece que o mercado também não, afinal estão pagando muito pouco para poder alugar o ativo.

Só vale para a Vale?

Se o mercado está cobrando tão pouco de quem quer alugar ações da Vale deve ter um motivo. Raciocínio análogo pode ser feito para Petrobras, Banco do Brasil, Bradesco, Itau, para citar apenas alguns ativos relevantes da economi brasileira. Se for para mercados externos, como Europa, EUA, China, etc. você terá “oportunidades” similares.

Comparando as tendências, gráficas ou fundamentalistas, das cotações desses ativos, e fazendo correlação com os respectivos alugueis, acredito que você poderá chegar a um interessante indicador de tendência de cotação de um ativo.

Agora, se está curioso para saber quanto estão cobrando pelo aluguel de Bitcoin sugiro que pesquise você mesmo. Até porque a flutuação desta cotação anda tão significativa que não consigo sequer estimar a quanto estará quando você for ler este artigo.

As conclusões eu deixo por sua conta, leitor. Eu já cheguei à minha: estou fora de quaisquer negócios com moedas virtuais, inclusive as Bitcoin.

Até a próxima.

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