Consumismo e compras compulsivas

O Educando Seu Bolso foi convidado pela Rede Minas de televisão a participar do programa Opinião Minas. Fomos conversar sobre compras compulsivas, um assunto tão importante nos dias de hoje. Afinal, nossa sociedade é cada vez mais movida pelo consumismo. Por isso, muitas vezes é difícil identificar quando um consumidor está desenvolvendo comportamento compulsivo e quando ele está apenas repetindo padrões que a sociedade tenta impor.

Participou do debate a psicóloga Michelle Ralil. Fomos recebidos pela apresentadora Carolina Lamounier. A conversa foi muito rica. Falamos sobre consumo consciente, passamos pelo comportamento compulsivo, até chegar ao consumo doentio – chamado de oniomania. Fiz algumas recomendações sobre como se organizar financeiramente – afinal, isso facilita muito a identificar o comportamento ruim – e como mudar hábitos de consumo. Vale a pena assistir.

O que é consumismo

Consumo é o ato de comprar ou de utilizar alguma coisa. Há coisas que você consome sem comprar. O oxigênio que respiramos, por exemplo, nós – ainda – não precisamos comprar. E há coisas que nós compramos e não utilizamos. Aqui podemos usar a hashtag #quemnunca. Afinal, quem nunca comprou uma roupa e não usou, ou nunca comprou um livro e não leu?

Já a palavra consumismo tem várias definições. As que mais me agradam são as que associam o consumismo à sociedade, mais que ao indivíduo. É como se fosse uma doutrina, um conjunto de valores difundidos por um determinado grupo, e que as pessoas passam a adotar, consciente ou inconscientemente.

O consumismo seria, então, um modo de vida baseado no consumo. Primeiro, as pessoas passam a acreditar que a felicidade e o sucesso podem ser medidos pelos bens materiais que um indivíduo possui. Depois, passam a acreditar que é preciso consumir maior variedade e quantidade de produtos, e frequentemente trocar os produtos usados por outros, novos. Assim, acreditam que quem consegue seguir essa cartilha é bem sucedido e, portanto, feliz.

O que é compra compulsiva

Definidos os conceitos de consumo e consumismo, vamos agora entender o que é compra compulsiva. Basicamente, é aquela compra que a pessoa faz sem refletir muito sobre por que comprar. Comprou só porque achou bonito, ou achou que poderia ser útil, ou comprou só porque os amigos compraram, ou – mais perigoso – só porque o mundo, de alguma forma, convenceu de que era hora de comprar. Sendo assim, compras compulsivas são, por definição, ruins, são algo que devemos evitar o máximo que pudermos.

Há pessoas que incorrem nesse erro apenas de vez em quando. Com essas eu não me preocupo muito. Afinal, todos nós estamos sujeitos a um deslize, vez ou outra.

Mas há aquelas que compram compulsivamente com certa frequência. E há aquelas que fazem isso sempre, e vão comprando mais e mais. Essas, sim, me preocupam e são o motivo deste post.

Sintomas

Nem sempre é fácil definir se uma compra foi compulsiva ou não. O fato de uma pessoa comprar uma coisa e não usar não caracteriza a compra compulsiva.

Vamos a um exemplo. Sua namorada insiste para você comprar um par de sapatênis, mas você não acha aquilo muito bonito. Aí você vê muitas pessoas usando, considera que os sapatênis talvez vão te deixar mais descolado, mais fashion, e que talvez você devesse experimentar algo novo. Fica alguns dias pensando, e finalmente cria coragem: compra um sapatênis. Chega em casa, bota aquilo no armário, e nunca mais tira.

Isso não é uma compra compulsiva. Você pensou bastante, se dispôs a mudar um comportamento, mas na hora H acabou não mudando. A mesma coisa acontece, por exemplo, quando, depois de muito resistir, você se matricula em uma academia, mas nunca põe os pés lá.

Para entender melhor, vamos a algumas possíveis características de uma compra compulsiva:

  • Irrefletida: A pessoa não pensa antes de comprar. Viu, gostou, comprou. Às vezes, nem gostou muito.
  • Inútil: O produto comprado não vai servir para nada. Uma roupa apertada, por exemplo. “Ah, eu vou emagrecer e ela vai me servir”. Ah, sei…
  • Exagerada: O sujeito resolve se dedicar mais à literatura. Entre no site de uma livraria e compra 12 livros de uma vez.
  • Inoportuna: A pessoa já tem 2 carregadores de celular sobressalentes em casa, dentro da embalagem, nunca utilizados. Vai e compra mais um.
  • Extravagante: O sujeito vai a uma dessas lojas de artigos para reforma, construção e decoração, para comprar uma lixeira nova para seu escritório. E volta para casa com uma serra de marceneiro profissional – apesar de não saber nem usar um martelo.

Não é necessário que a compra apresente todas essas características para que seja considerada compulsiva. Às vezes bastam duas ou três.

Oniomania

Alguns anos atrás escrevi aqui no blog um texto sobre o vício em consumir. Ele tem um nome: oniomania. Em rápidas palavras, é o hábito doentio de realizar compras compulsivas com muita frequência, a ponto de prejudicar outras estruturas da vida, como as finanças, o trabalho e os relacionamentos.

O mecanismo dessa doença é muito semelhante ao que acontece com outras formas de vício. No início, a conduta do indivíduo se parece com a da maioria das pessoas. Com o tempo, os hábitos vão saindo um pouco da média, mas ainda não parece haver nada fora do normal. Às vezes aquilo é, aos olhos dos colegas, um traço até divertido no comportamento da pessoa. A família e os amigos mais próximos já começam a perceber algo estranho. Passa mais um tempo, os hábitos vão ficando cada vez mais exagerados, e a pessoa passa a ser vista como extravagante. A família já está preocupada. No final das contas, a pessoa já perdeu o controle sobre sua vida, já representa um problema para a família, já tem problemas sérios no trabalho, nas relações e até na saúde.

A descrição deste triste quadro vale para qualquer forma de vício: álcool e outras drogas, jogos de azar, comida, sexo, cigarro entre outros. E vale também para o consumo compulsivo. O mecanismo, no cérebro e nas emoções da pessoa, é basicamente o mesmo.

Consumismo

Tratamento

E, como todas as demais formas de vício, a oniomania tem tratamento. Ele pode ser feito, por exemplo, por meio da atuação de psicólogos e psiquiatras. É importante procurar entender o que está ao redor do problema. Como isso começou? Havia, no início, problemas relacionados a autoestima? Existem outros distúrbios atuando junto, como a depressão, por exemplo? Bons profissionais poderão fazer uma boa investigação.

Mas, além do tratamento por meio de profissionais, existem também grupos de ajuda mútua, chamados Devedores Anônimos. Eles funcionam da mesma forma que os Alcoólicos Anônimos. Isto é, a partir de uma programação simples, baseada em 12 passos, e de reuniões periódicas, conduzidas pelas próprias pessoas que passaram ou passam pela mesma dificuldade.

Nos grupos de 12 passos há um espírito de identificação, de compartilhamento de exemplos, de solidariedade, de criação e fortalecimento de amizades e da busca conjunta por uma nova maneira de conduzir a vida, livre do comportamento que levou os membros à degradação.

Os Devedores Anônimos ainda não estão tão bem estruturados no Brasil como os Alcoólicos Anônimos e os Narcóticos Anônimos. Ainda são poucas as cidades que contam com reuniões presenciais periódicas, mas existem reuniões online, que podem ser muito úteis. Uma visita ao site da irmandade poderá dar mais informações.

Consumir não é terapia

No último bloco do programa Opinião Minas foram apresentados alguns depoimentos de pessoas nas ruas e em lojas. Todas elas manifestaram que consumir lhes dá prazer. Este, aliás, é um dos pilares do consumismo.

Um depoimento, porém, me chamou a atenção. Uma senhora disse que consumir, para ela, funciona como uma terapia. Quando está chateada com algo, fazer compras melhora seu humor.

Muita gente pensa e age assim. Mas é claro que isto é um grande equívoco. Em primeiro lugar, porque não funciona. O prazer da compra, por si só, não é duradouro, e não interfere naquilo que está causando o mal estar à pessoa. E, em segundo lugar, porque pode agravar a situação. Afinal, essa brincadeira pode ficar cara e criar mais um problema para a pessoa: o endividamento.

É claro que é a vida pede que cada um de nós busque formas de se satisfazer. Cultivar bons relacionamentos, exercitar-se, contribuir para uma boa causa, divertir-se, aprender algo novo, tudo isso são formas saudáveis de prazer. Podem até ser chamadas de terapia. Mas consumir, acredite em mim, não pode. E não deve. É inútil, caro e perigoso.

Consumo consciente, saudável… e prazeroso

O consumo consciente não significa, necessariamente, consumir pouco. Nem mesmo consumir somente o necessário. Consumir pode e deve ser prazeroso e há, nesse ato, espaço para o supérfluo.

Em meu primeiro texto no Educando Seu Bolso eu falo sobre como diferenciar o necessário e o supérfluo. Não me atrevi a responder a pergunta, porque isso varia de pessoa para pessoa. Apenas convidei o leitor a refletir sobre isso.

No início deste post eu disse que consumismo é o modo de vida baseado no consumo. Ser contra o consumismo não significa negar o prazer que o consumo pode proporcionar. Todo mundo gosta de passear, se divertir, comer algo saboroso, dar e ganhar presentes. Tudo isso é consumo e, em muitos casos, é supérfluo. O supérfluo também é importante. Com moderação.

Consumir pode ser a consequência do trabalho dedicado e de uma vida responsável. E isso, sim, é um prazer muito bem vindo. Quando uma pessoa compra algo simplesmente pelo ato de comprar, tem um prazer passageiro e nada saudável. Mas quando compra depois de trabalhar firme, cuidar do dinheiro, refletir sobre a compra e, finalmente, comprar, é uma realização merecida e saudável. Não há nada de mau em ter prazer com isso.

Quem é mais consumista?

Um ponto que veio à pauta durante o programa foi a questão do gênero. Quem é mais consumista, os homens ou as mulheres?

Bem, o consumismo atira para todos os lados. Basta ligar a TV, acessarmos o Facebook, ou qualquer site que contenha propagandas e vamos logo concluir que há anúncios para todos os gostos, gêneros, idades e bolsos.

O senso comum costuma dizer que as mulheres são mais consumistas. Muitas vezes elas são retratadas – em filmes, piadas, shows de comédia stand up – como pessoas um tanto descontroladas, quando diante de vitrines.

Eu, sinceramente, tenho minhas dúvidas. Prefiro não colocar a mão nesse vespeiro, porque não tenho em mãos dados confiáveis para afirmar nada. Quero só acrescentar que, em minha opinião, apenas os objetos de desejo mais afeitos a mulheres costumam ser associados ao consumismo do que outros.

Isso não é um pouco injusto? Muitos consideram um pecado mortal exagerar na compra de roupas, sapatos, bolsas e bijuterias. Mas consideram um pecado de menor gravidade gastar dinheiro com livros, eletrônicos e acessórios para carro.

Bem, quando a compra é compulsiva, não importa qual é o produto. Não é saudável.

Organização financeira

Falei há pouco sobre cuidar do dinheiro, certo? Pois é. Aqui vai um conselho que vale para todo mundo – pessoas organizadas, desorganizadas, compulsivos, até para oniomaníacos: organize-se.

Quem acompanha o blog sabe o quanto nós falamos sobre isso por aqui. Além de falar sobre a importância da organização, nós apresentamos um passo a passo sobre como elaborar seu orçamento pessoal. Vale a pena conferir.

Um orçamento pessoal bem feito pode revelar problemas na sua conduta financeira quando eles ainda estão pequenos e fáceis de resolver. Se você acha que seus hábitos financeiros não estão tão bons quanto poderiam e deveriam, não deixe a coisa se agravar.

Concluindo

Foi um grande prazer para nós, do Educando Seu Bolso, participar do Opinião Minas. Agradecemos à Rede Minas pela oportunidade. É muito bom poder falar sobre esse assunto na TV aberta. Consumismo e compras compulsivas são temas muito importantes, que afetam a cada vez mais pessoas.

E é muito bom conversar com gente qualificada. A psicóloga Michelle Ralil sabe muito sobre o assunto. É um tema bastante complexo, que tem conexões com diversos outros, dentro da psicologia. E ela fala sobre eles de forma muito clara. Vale a pena assistir.

Consumir é uma atitude que faz parte do cotidiano das pessoas. Pode e deve ser um hábito saudável e prazeroso.

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