Um trajeto comum de casa até o trabalho em uma corrida de app, durante anos, custou pouco mais que a passagem de ônibus somada a um café. Hoje, o mesmo percurso pode sair pelo dobro do preço e às vezes até mais.
Em 2025, segundo dados do IPCA, o transporte por aplicativo registrou alta de 56% no Brasil, a maior já medida em um único ano. Em algumas capitais, o aumento se aproximou dos 70%. Mas, mais importante que o número no índice é o impacto no bolso real de quem usa o serviço todos os dias.
A pergunta que muita gente faz ao olhar para a tela do celular é simples. Quando foi que isso ficou tão caro? A resposta envolve economia, estratégia empresarial e, principalmente, uma mudança silenciosa no papel que esses aplicativos passaram a ocupar no orçamento das famílias.
3 motivos pelos quais as corridas de app ficaram mais caras
O aumento não é fruto de um único fator. Ele é resultado de um ajuste estrutural no setor de transporte por aplicativo e de uma nova realidade econômica.
- O modelo mudou
Nos primeiros anos de operação, plataformas como Uber e 99 cresceram com base em investimentos. A lógica era expandir rapidamente, atrair usuários e conquistar mercado. Para isso, muitas corridas tinham um preço menor do que custava e o passageiro pagava menos.
Esse período ficou para trás. Agora o foco é a rentabilidade, as empresas passaram a reduzir descontos e promoções agressivas. Hoje, a prioridade é equilibrar receita e despesa.
- Oferta e demanda desequilibradas
A volta ao trabalho presencial aumentou a quantidade de pessoas na rua e no mesmo horário. Ao mesmo tempo, o número de motoristas ativos nem sempre acompanha esse crescimento. Custos como combustível, manutenção e seguro aumentaram nos últimos anos, tornando a atividade menos atraente para parte dos motoristas de app.
Quando há mais gente solicitando corridas do que carros disponíveis, o algoritmo reage elevando os valores.
- Tarifa dinâmica cada vez mais frequente
Esse desequilíbrio de oferta e demanda também influencia na chamada tarifa dinâmica e agora ela está mais sensível. Pequenas variações já são suficientes para ativar aumentos: chuva inesperada, congestionamentos, eventos culturais ou esportivos.
O que antes era exceção virou rotina.
O que é a tarifa dinâmica do Uber e como ela funciona?
A tarifa dinâmica é o mecanismo que ajusta o preço das corridas em tempo real, de acordo com a relação entre oferta e demanda. Em outras palavras, quando muita gente quer um carro ao mesmo tempo e há poucos motoristas disponíveis na região, o valor sobe. Quando a demanda cai ou há muitos motoristas online, o preço tende a diminuir.
Esse sistema funciona por meio de algoritmos que analisam dados constantemente, até padrões históricos daquele horário. O objetivo declarado é equilibrar o mercado, mas na realidade é maximizar a receita. O algoritmo não trabalha com a ideia de “justo” ou “acessível”.
Quais horários o Uber fica mais caro?
A lógica da tarifa dinâmica é quase automática. Basta um pico inesperado, seja uma chuva forte no fim da tarde, um show que acabou, um jogo de futebol para que o aplicativo identifique aumento na procura. Mas os horários de pico durante a semana também influenciam. Entre 6h30 e 9h que as pessoas estão indo para o trabalho e entre 17h e 20h que é a volta.
Existe como “driblar” a tarifa dinâmica?
Não há como eliminar completamente o impacto da dinâmica, mas entender seu funcionamento ajuda a tomar decisões mais racionais.
Algumas estratégias comuns incluem:
- Esperar alguns minutos para verificar se o valor cai.
- Caminhar algumas quadras para sair de uma área com alta concentração de pedidos.
- Se programar para antecipar ou atrasar a saída para fugir do horário de pico.
- Comparar com outros aplicativos disponíveis.
Nada disso garante preço baixo, mas reduz a probabilidade de pagar o valor máximo daquele momento.
Como a alta do Uber impacta o dia a dia, e não só o seu deslocamento
O aumento no preço das corridas por aplicativo não muda apenas a forma de ir do ponto A ao ponto B. Ele altera rotinas, decisões e a maneira como as pessoas encaram pequenos gastos diários.
O que antes era uma solução automática, passou a exigir cálculo e isso é ótimo, pois exige mais escolhas conscientes. Além disso, as corridas entram como valores fragmentados e o susto vem junto com a fatura no final.
E o pior, quando o preço médio sobe mais de 50%, o transporte por app começa a disputar espaço com lazer, poupança e outras despesas fixas. E talvez o efeito mais perigoso seja psicológico: aos poucos, preços altos vão sendo normalizados. Aquela corrida de R$40, que antes parecia absurda, vira “o novo normal”. E quando o caro vira rotina, o controle financeiro tende a afrouxar.
Conclusão: comodidade não é despesa obrigatória
O encarecimento das corridas por aplicativo não aconteceu do nada. O serviço continua eficiente, rápido e prático, mas agora o preço pago está mais próximo do custo real dessa conveniência.
O ponto central para o consumidor é simples: Uber não pode virar gasto fixo, muito menos hábito diário automático. Quando entra na rotina como se fosse uma conta mensal inevitável, ele pressiona o orçamento de forma silenciosa e constante. Transporte por aplicativo deve ser ferramenta estratégica, não despesa permanente. Em tempos de orçamento apertado, procurar outras formas de se locomover na cidade se torna essencial. A tecnologia facilita o deslocamento, mas não substitui o planejamento.