Recentemente, viralizou nas redes sociais a ação do Nubank que projetou em um prédio a frase “3 em cada 4 brasileiros já tiveram insônia financeira”. A mensagem chama atenção porque é um problema real. Para muita gente, as preocupações com dinheiro não ficam apenas no extrato bancário, elas ficam na cabeça durante o dia e principalmente quando ele termina.
Contas para pagar, dívidas acumuladas ou a sensação de que o orçamento não fecha são pensamentos que insistem em voltar justamente na hora de dormir. Mas, antes de discutir possíveis soluções, e principalmente antes de acreditar que um banco pode resolver a situação com um empréstimo, vem entender melhor o que realmente está por trás dessa insônia financeira.
O que é insônia financeira e por que tanta gente sofre com isso?
Insônia financeira é quando preocupações com dinheiro tiram o sono. A pessoa deita, mas a cabeça continua fazendo contas. Boleto que vence amanhã, fatura do cartão, dívida acumulada ou medo de o dinheiro não dar até o fim do mês.
Não é exagero. E o problema está longe de ser individual, 75% dos brasileiros já perdeu o sono por causa das finanças. E daí surge um ciclo difícil de quebrar. O estresse financeiro atrapalha o sono. Em seguida, o sono ruim atrapalha as decisões. Por último, com a cabeça cansada, fica mais fácil cair em soluções rápidas, como crédito caro ou novos parcelamentos.
O marketing em cima da “insônia financeira”
Problemas financeiros sempre existiram. Pegar dinheiro emprestado e não saber como devolver e “pagar fiado” existem desde que o mundo é mundo. O que mudou é a forma como eles são usados na comunicação das empresas. Nos últimos anos, bancos e fintechs passaram a transformar sentimentos comuns como ansiedade, medo e insegurança em parte do discurso de marketing.
Primeiro se apresenta o problema de forma dramática, depois, o próprio banco aparece como o caminho para resolvê-lo. Mas deixa eu te contar uma coisa, se você está perdendo o sono por estar endividado, ao aceitar um empréstimo, você continua endividado. Parece óbvio, mas é fácil se perder no discurso emocionante e artes bonitas.
O problema é mais profundo do que falta de empréstimo
Quando o orçamento está apertado, pegar um novo empréstimo pode até trazer um alívio momentâneo. A conta urgente é paga, a pressão diminui e a sensação de controle volta por um tempo. Mas o custo aparece depois em forma de parcelas, juros e novos compromissos mensais.
A narrativa é convincente, mas na maioria dos casos a origem da insônia financeira já está justamente no excesso de dívidas ou no uso constante de crédito. E nem precisa ir longe, aqui mesmo, na consultoria financeira do Educando Seu Bolso, percebemos um fato interessante: a maioria esmagadora das pessoas que atendemos tem dívidas no Nubank.
Não que isso seja difícil, afinal, o Nubank é um dos bancos que mais cresce no país e ao mesmo tempo é um dos bancos que mais colocou pessoas na Serasa. Em 2022, entre os 2,5 milhões de brasileiros endividados atendidos pelo programa “Desenrola”, 1 milhão eram do Nubank (40% do total).
3 razões do por que um empréstimo não vai resolver a vida
- Dívida nova raramente resolve dívida antiga
Usar crédito para pagar outra dívida pode fazer sentido em algumas situações, principalmente quando se troca um juro muito alto por um mais baixo. Pegar um empréstimo consignado CLT para pagar o rotativo do cartão, por exemplo, pode valer a pena.
Mas isso só funciona se vier acompanhado de mudança no orçamento. Nesse cenário, o empréstimo não resolve a insônia financeira. Ele apenas muda o problema de lugar.
- O alívio imediato pode virar preocupação depois
Mais dinheiro agora significa menos dinheiro lá na frente. O crédito costuma trazer uma sensação de respiro imediato. A conta é paga, a cobrança desaparece e a pressão diminui.
Mas esse alívio tem prazo para acabar. Se o orçamento já estava apertado antes, as parcelas recheadas de juros do empréstimo podem se transformar em uma nova fonte de ansiedade financeira.
- Trocar ansiedade por parcelas não é solução
A insônia financeira pode nascer de três fatores: renda insuficiente, gastos desorganizados ou dívidas caras acumuladas. Nenhum deles desaparece simplesmente porque um novo empréstimo entrou na conta.
Sem ajuste no orçamento, aumento de renda ou renegociação inteligente das dívidas, o crédito vira apenas uma troca de problema.
O que realmente ajuda a dormir melhor quando o assunto é dinheiro?
Se a insônia financeira nasce da falta de controle sobre o dinheiro, a solução passa pelo caminho contrário. Clareza, organização e alguma margem de segurança no orçamento. Isso não significa que o problema se resolve da noite para o dia. Mas algumas mudanças simples já ajudam a reduzir a ansiedade e trazer mais previsibilidade para as contas.
- Saber como realmente está sua situação financeira: saber quanto ganha, quais os gastos essenciais e as dívidas abertas é o primeiro passo para o controle financeiro. Pode ser na planilha, aplicativo ou até papel, o importante é visualizar o dinheiro entrando e saindo.
- Priorizar dívidas com juros mais altos: começar pagando as dívidas mais caras, como cartão de crédito e cheque especial já traz um grande alívio. E não se esqueça de sempre tentar renegociar prazos e taxas.
- Criar pequenas margens de segurança no orçamento: uma reserva de emergência salva vidas, literalmente. Tente guardar um valor mensal, mesmo que seja pouco no início. Ter algum dinheiro reduz muito a sensação de risco constante e que uma hora vai faltar grana, porque o cachorro vai adoecer, carro estragar e por aí vai.
Conclusão: dormir tranquilo não depende de crédito fácil
Milhões de brasileiros convivem com a ansiedade de contas apertadas, dívidas e falta de margem no orçamento. Dar nome a esse problema ajuda a entender o que está acontecendo, mas isso não significa que a solução seja simples.
Se a preocupação com dinheiro nasce do excesso de dívidas e da falta de folga no orçamento, oferecer mais crédito dificilmente resolve o problema. E infelizmente isso não é exclusividade do Nubank. É a lógica de grande parte da indústria financeira hoje em dia. O problema aparece na campanha, mas a solução oferecida quase sempre passa por contratar algum produto e geralmente crédito.
Dormir melhor quando o assunto é dinheiro depende de algo menos conveniente para os bancos: organizar o orçamento, reduzir dívidas caras e criar alguma reserva. E raramente essas soluções viram projeção em prédio ou slogan de campanha.