Planejamento financeiro, INSS e aposentadoria

Fomos convidados a participar do ótimo programa Brasil das Gerais, da Rede Minas de televisão. Conversamos com a apresentadora Patrícia Pinho e seus convidados sobre assuntos que nosso leitor já viu várias vezes por aqui, como organização financeira pessoal, INSS e aposentadoria.

São assuntos totalmente conectados, tanto é que participamos de dois blocos do programa. No primeiro, falamos sobre organização e planejamento financeiro. Estava lá também a Ana Paula Bastos, economista da Câmara dos Dirigentes Lojistas – CDL de Belo Horizonte. No segundo, falamos sobre INSS e outras formas de aposentadoria. Estava presente o Abelardo Sapucaia, advogado especialista em direito previdenciário.

Antes de começar, quero falar um pouco sobre essa experiência: como é bom conversar com quem entende do assunto! E o Brasil das Gerais é cuidadoso com isso. Ana Paula trouxe a experiência de quem observa a desorganização financeira das pessoas a partir de um ponto de vista muito interessante: o do SPC. E o Abelardo demonstrou segurança e conhecimento impressionantes em um assunto tão cheio de detalhes: a legislação previdenciária. Vale a pena assistir.

Outra característica do Brasil das Gerais é a trilha sonora de bom gosto. No dia da nossa participação foi lá a Dona Jandira, tocando e cantando clássicos do samba com arranjos que eu nunca havia visto. Pode ser empolgação minha, mas em alguns momentos me lembrou a estrela do jazz Alberta Hunter. Só que cantando Noel Rosa e Dorival Caymmi.

Vale a pena ver tudo. São dois vídeos de vinte e poucos minutos. Recomendo.

Pesquisa

Patrícia começou essa edição do Brasil das Gerais falando de uma pesquisa realizada Serviço de Proteção ao Crédito – SPC e pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas – CNDL. Um levantamento feito em todo o Brasil mostra que 58% das pessoas não conseguem levar adiante um plano de organização financeira. Mas que, ao mesmo tempo, 61% acham isso importante.

Repare bem: 58% e 61%. Quer dizer que muitos dos que acham importante o planejamento não conseguem colocar isso em prática. Isso vale para tantas coisas na vida, não é mesmo?

Comer e gastar, é só começar

Em determinado momento da conversa eu comparo a necessidade de disciplina financeira com a necessidade de disciplina alimentar. Não é preciso ser nenhum especialista em nutrição ou em finanças para saber o que fazer e o que não fazer para manter a boa saúde – financeira, inclusive.

O difícil é fazer. A pessoa tem colesterol alto. Um dia ela vai com os amigos a um bar famoso pelos tira-gostos. Ela sabe que aquele torresmo de barriga não vai lhe fazer bem. Mas aí pensa: se deixar de comer, o colesterol dela não vai baixar no mesmo dia. É um exercício de longo prazo. Por outro lado, se ela comer, o prazer vai ser imediato. Aí, ela olha para o lado, vê que seus amigos estão se deliciando com o tal torresmo e resolve adiar essa coisa de cuidar do colesterol. Depois ela muda a alimentação, começa a praticar exercícios físicos, toma medicamentos…

Não é difícil imaginar uma situação assim com as finanças pessoais. A pessoa está endividada. Aí aparece pela frente alguma coisa que ela adora. Um passeio, uma viagem, um sapato, um restaurante, um pedido do filho, um livro, um jogo de futebol. Os amigos estão comprando, ela vai e compra também.

O mecanismo do dinheiro não é apenas parecido com o da comida: é idêntico.

Dá para poupar dinheiro?

Nós, que lidamos com educação financeira, frequentemente ouvimos um argumento mais ou menos assim: “Ah, essa história de poupar dinheiro é importante, mas não é para mim, não. Meu dinheiro é muito contado, mal dá para o necessário. Eu não tenho mais onde cortar”.

Ok, sabemos que esse conceito de “necessário” é bem relativo, certo? Falei sobre isso no meu primeiro texto aqui no blog. Então algumas pessoas se convencem de que não têm onde enxugar o orçamento, mas na verdade teriam, sim.

Mas em um país como o nosso, de fato, grande parte da população ganha realmente pouco, a conta do básico, às vezes nem isso. A pessoa pode ser disciplinada e organizada, mas o dinheiro dela de fato é curto.

O que um educador financeiro pode dizer para essas pessoas?

Pode, por exemplo, sugerir que ela preste atenção nos desperdícios. Será que ela não desperdiça nada, nunca? Pode, também, convidá-la a aumentar sua renda, um pouco que seja. Será que não tem nada que ela possa fazer ou produzir? Tudo o que ela economiza evitando desperdícios, ou ganha como renda extra, pode se transformar em poupança.

Disciplina

Mas tudo depende da disciplina, como bem lembrou a Ana Paula. E fez uma comparação interessante: uma vida muito desorganizada financeiramente é como uma casa muito bagunçada. A pessoa olha para aquilo e não sabe nem por onde começar a arrumar. E não começa. Vai vivendo ali mesmo, dormindo naquela bagunça, lavando louça e roupas à medida em que precisa usar…

Assim não dá. As contas – e a casa – não se arrumam sozinhas. Pelo contrário, a coisa só piora. Dali a pouco a bagunça começa a afetar a capacidade de trabalho, o que afeta a renda da pessoa, e aí sim, a coisa se complica.

É preciso começar a arrumação. Já falamos muito sobre isso aqui. Saber quanto se ganha, quanto e como se gasta, identificar supérfluos, eliminar desperdícios.

INSS

Crédito

Falamos bastante sobre o mau uso do crédito. A pesquisa do SPC diz que 17% das pessoas complementam sua renda com cheque especial. Destes, 24% são jovens.

Ora, fiz questão de ressaltar que essas pessoas pensam que estão complementando a renda, mas na verdade estão apagando fogo com gasolina. Cheque especial não é complemento de renda, é um ralo de dinheiro. É uma linha de crédito para ser usada apenas em emergências.

Sonhos não devem ser financiados com crédito caro. Eles precisam ser transformados em objetivos, depois em planos. Isto é, ser bem pensados, preparados, planejados… Senão se transformam em pesadelos.

O mecanismo

Patrícia comentou mais um ponto interessante da pesquisa: 48% das pessoas abandonam seus planos de disciplina financeira no meio do caminho.

Ana Paula fez um desenho interessante sobre por que isso acontece. Segundo ela, tudo começa no natal. Chega dezembro, 13º salário na conta, a pessoa se empolga nas compras de natal. Sem se planejar. Chega janeiro, vêm IPTU, IPVA, as prestações de dezembro, as férias… Pronto, lá se vão aquelas resoluções da virada do ano.

Educação

Aproveitamos o Brasil das Gerais para falar um pouco sobre a importância da educação financeira formal, nas escolas. A Base Nacional Comum Curricular passou a contemplar esse conteúdo. Não ficou definido objetivamente como isso vai acontecer na prática, mas já é uma ótima notícia.

Mas educação não acontece apenas na escola. Aliás, ela começa em casa, na família. Falamos sobre isso também.

Quando a família dá bons exemplos para seus filhos, nem sempre isso é suficiente para que eles assimilem e pratiquem os bons hábitos financeiros. Afinal, o mundo está repleto de convites ao consumo, a coletividade exerce um poder imenso sobre o indivíduo. Não é fácil educar nos dias de hoje.

E quando a família dá maus exemplos, aí é que a coisa complica. Pais consumistas, desorganizados, negligentes nos hábitos e na ética, possivelmente vão passar maus valores para os filhos.

Para isso estamos aqui, procurando ajudar, orientar, sugerir, educando seu bolso da melhor forma que conseguimos. Finalizamos nossa participação nesse bloco falando de algumas nossas ferramentas, os simuladores de maquininhas de cartão, de investimentos e de aposentadoria.

Segundo bloco

No segundo bloco do Brasil das Gerais falamos sobre INSS e aposentadoria. Patrícia apresentou os dados de outra pesquisa, que diz que 23% dos brasileiros pretendem se aposentar com mais de 60 anos. 21% pretendem se aposentar com idade entre 56 e 60 anos. Em média, a idade apontada como ideal para a aposentadoria é 60 anos. Para 59% dos entrevistados, os brasileiros se aposentam mais tarde do que deveriam.

O que isso quer dizer? Bem, olhando apenas esses dados, significa que os brasileiros gostariam de se aposentar no máximo com a idade em que se aposenta hoje em dia. De preferência, um pouco mais cedo. Isto parece um tanto fora da realidade, pois o que se discute – não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro – é justamente o aumento da idade para a aposentadoria oficial.

E se olharmos, ao mesmo tempo, essa pesquisa e a que comentamos no primeiro bloco, aí sim é preocupante. Porque uma pesquisa diz que muitos brasileiros não têm organização e disciplina em suas finanças pessoais. A outra diz que muitos brasileiros pretendem se aposentar com 60 anos. Juntando uma coisa e a outra, concluímos que alguns brasileiros não têm muita noção da realidade. Ou não percebem que a realidade da aposentadoria está mudando, ou não percebem que suas atitudes não condizem com o plano de se aposentar cedo.

O conceito de aposentadoria

Até alguns anos ou décadas atrás, para a maioria das pessoas, aposentar-se significava parar de trabalhar e continuar recebendo um salário de um órgão oficial – geralmente o INSS. Algumas pessoas até continuam trabalhando depois que se aposentam, mas o conceito é basicamente o mesmo: “eu cumpri determinados requisitos exigidos pela legislação, agora adquiri o direito de receber um dinheiro mensal, durante minha vida inteira”.

Esse conceito está mudando. Com as modificações no mercado de trabalho, o número de trabalhadores que contribui para o INSS tende a diminuir. Com isso, aos poucos cai esse conceito de que a aposentadoria será um direito perpétuo garantido por um órgão oficial. Fica cada vez mais claro que a aposentadoria precisará ser uma construção individual de cada trabalhador.

Algumas semanas atrás falamos aqui sobre os sistemas previdenciários de repartição e de capitalização. Para resumir, no sistema de repartição, os trabalhadores que contribuem hoje para o INSS sustentam a aposentadoria dos que trabalharam no passado. No sistema de capitalização, cada trabalhador contribui, hoje, para a sua própria aposentadoria no futuro. Isto seria a oficialização deste novo conceito, o de que cada um zela pela sua própria aposentadoria.

Mas o próprio advogado Abelardo Sapucaia, no segundo bloco, disse que a mudança para o regime de capitalização está descartada no curto prazo, pois dependeria de alterações profundas no INSS, no sistema previdenciário e na constituição. A reforma da previdência proposta pelo governo atual visa endurecer as regras dentro do próprio regime de repartição.

Isto é, mesmo dentro do regime de repartição, está bastante claro que, daqui para a frente, cada trabalhador precisará cuidar da própria aposentadoria, sem depender tanto do INSS.

“Quem não se comunica…”

O apresentador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, gostava de dizer que não veio para explicar, e sim para confundir.

Nosso Abelardo Sapucaia, ao contrário, foi ao Brasil das Gerais para explicar, e fez isso com clareza e segurança impressionantes. Fiquei admirado, porque a legislação é muito cheia de detalhes, números, condições, ressalvas, todas essas coisas que confundem a cabeça da gente. Abelardo foi explicando tintim por tintim vários dos “dependes” da legislação. Vale a pena assistir.

Um termo que ele usa muito é “aposentar-se de forma errada”. O que significa isso? Basicamente, aposentar-se na hora errada. Não basta adquirir o direito de se aposentar, é preciso avaliar o valor do benefício. Dependendo da situação, quando a pessoa adquire o direito de se aposentar, o valor do benefício é muito baixo. Sendo assim, compensa ela trabalhar – e contribuir – mais alguns anos.

Essa redução no valor acontece, basicamente, por dois motivos. Um deles é a fórmula de cálculo do benefício, que leva em conta a média dos 80% maiores salários que a pessoa recebeu no seu tempo de contribuição. O outro motivo é o fator previdenciário, que é uma fórmula que leva em conta o tempo de contribuição e a idade da pessoa.

Não é minha intenção detalhar tudo isso neste post. Abelardo explicou para o público do Brasil das Gerais, como você pode ver no vídeo, e nós já falamos sobre ele em outras oportunidades.

Uso errado de uma ideia certa

Hoje em dia a maioria das pessoas concorda que aposentar-se não significa parar de trabalhar. Pelo contrário. Com as melhorias na qualidade de vida, muita gente chega aos 60 ou 70 anos com saúde e disposição para dar e vender. Assim, se o trabalho não for muito cansativo, as pessoas devem mesmo procurar manterem-se produtivas. Isto é, continuar trabalhando mesmo depois de se aposentarem oficialmente.

O problema é quando as pessoas fazem aquilo que o Abelardo chama de “aposentar-se de forma errada”. Isto é, antes da hora.

Muitos incorrem no equívoco de acharem que, como vão continuar trabalhando – e, assim, recebendo o mesmo que recebiam antes de se aposentarem –, o dinheiro da aposentadoria seria uma renda extra. Porém, o que acontece é justamente o contrário: a aposentadoria é a renda principal, e o rendimento do trabalho é a renda extra – mesmo que seja maior que a aposentadoria.

Isto porque a aposentadoria é a renda que a pessoa vai levar por toda a vida. Enquanto o rendimento do trabalho um dia vai cessar. Afinal, por mais saúde que a pessoa tenha, quando chegar aos 80 ou 90 anos precisará diminuir o ritmo. E aí restará apenas a renda da aposentadoria.

Por isso é importante a pessoa aposentar-se na hora certa. E não deixar que uma boa ideia – continuar trabalhando mesmo depois de aposentar-se – seja motivo para apressar a aposentadoria e comprometer a renda futura.

INSS vale a pena

Patrícia me perguntou sobre boas formas para o público do Brasil das Gerais construir um patrimônio a ser usufruído na aposentadoria.

Falei um pouco sobre os benefícios do próprio INSS. Ele oferece benefícios bastante interessantes, em relação ao valor investido. Abelardo confirmou que, para determinado perfil – e ele explica que perfil é esse – compensa muito investir no INSS por conta própria.

As previdências privadas tradicionais – PGBL e VGBL – têm seu valor, principalmente para quem pode aproveitar as vantagens tributárias. Mas não são a única – e nem sempre a melhor – forma de se construir a reserva para a aposentadoria. É possível usar o próprio Tesouro Direto para essa finalidade. Basta saber usar e ter disciplina.

Aliás, as opções ao INSS são muitas. O que não varia muito é essa regra: saber usar e ter disciplina. É também para isso estamos aqui: para explicar de forma simples como funcionam os produtos financeiros e para reforçar a importância da disciplina no cuidado com o próprio dinheiro.

Concluindo

Bem, essa foi nossa participação no programa Brasil das Gerais. Gostamos muito da experiência, achamos que o resultado ficou ótimo, e estamos prontos para novas participações.

Reforçamos nossa sugestão para que o leitor assista aos vídeos. Patrícia brilhou na condução, Ana Paula e Abelardo mandaram muito bem, todos nós interagimos como se já nos conhecêssemos e o Brasil das Gerais fosse nossa sala de estar. Recomendo!

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