CDB pagando rendimento alto demais? Entenda o risco por trás disso

Imagine que você vai alugar um apartamento e encontra um anúncio cobrando metade do preço dos vizinhos, sem explicar o motivo. Você desconfiaria, certo? Pois na hora de investir, muita gente faz o oposto: vê um rendimento bem acima da média e pensa só "que sorte a minha", sem se perguntar por que aquele banco está pagando tanto para ter o seu dinheiro.
É esse tipo de armadilha que o caso do Banco Digimais escancarou nos últimos meses. E ele serve de aula prática para qualquer pessoa que tem, ou pensa em ter, dinheiro guardado em CDB.
Um banco sob investigação, mas ainda vendendo CDB
O Digimais pertence ao bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus. Em 23 de junho de 2026, a Polícia Federal bateu na porta do banco. Foi a chamada Operação Miragem: mais de 50 policiais, nove mandados de busca, e o bloqueio de bens que pode passar de R$670 milhões. A suspeita é grave: segundo dados do Banco Central usados na investigação, o Digimais teria maquiado seus balanços para parecer mais saudável do que realmente estava, escondendo dos órgãos de fiscalização sua real situação financeira. Guardadas as diferenças, é praticamente o mesmo roteiro que levou o Banco Master à falência.
E o mais curioso: mesmo depois disso tudo vir à tona, ainda dá para comprar CDB do Digimais em grandes plataformas, como Itaú, XP, BTG e Ágora (do Bradesco). A diferença é que ninguém mais está vendendo esse papel "novinho em folha". O que existe agora são outros investidores tentando se desfazer dos CDBs que já tinham, na chamada revenda. Nubank e Inter, que também ofereciam o produto, sumiram da lista de quem ainda vende.
Esses papéis continuam anunciados com o selo do FGC (o fundo que protege até R$ 250 mil do seu dinheiro se o banco quebrar), e quase toda corretora avisa que o risco é alto. A única exceção é o BTG, que classifica como "moderado" e não quis explicar o porquê.
A investigação não parou por aí. Nas semanas seguintes, a pressão sobre o grupo de Edir Macedo só cresceu. O banco diz que está colaborando com as autoridades. Já a Igreja Universal se manifestou afirmando que o bispo não participa do dia a dia executivo, financeiro ou contábil da instituição.
Como um CDB "usado" chega até você?
Vale entender esse mecanismo, porque é ele que explica como esses papéis continuam circulando mesmo com o banco na mira da PF.
Pense assim: quando você compra um CDB direto do banco, seu dinheiro entra no caixa da instituição na hora. Isso é o mercado primário. Mas, se você precisar desse dinheiro antes do prazo combinado, não dá simplesmente para "devolver" o CDB. Você vende o papel para a corretora, que paga um valor um pouco menor (o chamado deságio) e depois repassa esse mesmo CDB para outro investidor interessado. É como vender um ingresso que você comprou mas não vai mais usar: alguém compra de você, não da produtora do evento.
Foi isso que aconteceu com o Digimais. BTG, XP e Itaú pararam de vender CDBs novos do banco: o BTG no dia da operação da PF, a XP em novembro de 2025, e o Itaú em março de 2025, depois que seus próprios sistemas de monitoramento acenderam um alerta. Só que os títulos que já estavam com outros investidores seguiram circulando, e ainda circulam, sendo revendidos dentro das plataformas.
Tem um detalhe que pouca gente percebe aqui: esse dinheiro da revenda não entra no caixa do Digimais, mas pode aumentar o tamanho do rombo para o FGC. Se quem está vendendo tinha mais de R$250 mil aplicados, o valor que passava do limite é transferido para o novo comprador, que passa a ter direito à própria garantia do FGC. Ou seja, quanto mais gente comprando esses papéis na revenda, maior fica a conta que o fundo pode ter que pagar se o banco quebrar de vez.
CDB rendendo 140% do CDI
O Digimais não é o primeiro caso do tipo. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master depois de descobrir fraudes e ver que ele não tinha condições de pagar o que devia. Foi o maior socorro da história do FGC: R$ 40,6 bilhões devolvidos a investidores, com pagamentos que começaram em janeiro de 2026 e, em poucos meses, já cobriam quase todo o valor. O Will Bank, do mesmo grupo, também quebrou.
A receita costuma ser sempre parecida: um banco pequeno ou médio oferece juros bem acima da média (o Master chegou perto de 140% do CDI), usa a garantia do FGC como argumento de venda para tranquilizar o investidor, e depois é flagrado maquiando as contas para esconder que estava afundando. Foi de olho nesse padrão que o Conselho Monetário Nacional apertou, em 2026, as regras para bancos que usam a garantia do FGC como isca para captar dinheiro.
O que o FGC realmente garante?
Pensa no FGC como um seguro: ele devolve até R$250 mil por CPF (ou CNPJ), somando tudo o que você tem naquele grupo financeiro, seja CDB, RDB, LCI, LCA, poupança ou conta corrente. Também existe um teto de R$1 milhão a cada quatro anos por pessoa. A cobertura já vem automática, você não precisa contratar nada. Mas ela tem letras miúdas que valem a pena conhecer:
O limite de R$250 mil vale por banco, e não por tipo de produto. Ter R$200 mil na conta e mais R$200 mil em CDB no mesmo banco não te dá direito a R$400 mil de volta, só R$250 mil. Bancos do mesmo grupo dividem esse limite entre si. Espalhar dinheiro entre duas marcas de um mesmo conglomerado não é diversificação de verdade.
Como o dinheiro rende com o tempo, um valor que começa perto do teto pode ultrapassá-lo antes mesmo do CDB vencer, deixando uma parte sem proteção nenhuma.
E o FGC devolve o dinheiro se o banco quebrar de vez, mas não faz a venda de um banco em crise andar mais rápido. Enquanto essa negociação se arrasta, quem tem dinheiro ali convive com a insegurança de estar aplicado numa instituição sob pressão, ainda que, na prática, continue conseguindo movimentar e resgatar normalmente enquanto não houver liquidação decretada.
Cinco sinais para desconfiar de um CDB
Antes de colocar dinheiro num CDB de banco pequeno ou médio, vale checar:
Se a taxa está muito acima da média. Bancos grandes costumam pagar entre 100% e 110% do CDI. Quando um banco pequeno oferece 130%, 135% ou mais, essa diferença quase sempre é o preço de um risco maior, não só uma promoção para atrair cliente.
Se a classificação de risco bate entre as corretoras. No caso do Digimais, quase todo mundo chama o papel de "risco alto", só uma corretora diverge e chama de "moderado". Quando as avaliações não se encaixam, já é sinal de atenção.
Se o banco parou de vender o título sem dar muita satisfação. Quando um parceiro tira um CDB da prateleira do mercado primário, mas ele continua circulando na revenda, vale se perguntar o motivo.
Se há notícia de investigação, troca de dono ou tentativa de venda do banco. Instituição correndo atrás de comprador ou sendo pressionada pelo Banco Central está, por definição, numa situação delicada, mesmo que no aplicativo tudo pareça normal.
A conta que quase ninguém faz: o efeito do prazo longo
Existe um detalhe que passa batido na maioria das vezes: os CDBs com juros mais chamativos costumam vir amarrados a prazos longos, de 2 ou 3 anos. E isso muda completamente a conta do limite do FGC. Não basta o valor que você aplica hoje caber nos R$250 mil, é o valor que ele vai virar lá na frente que precisa caber.
Faça esse cálculo com a gente: um CDB pagando 130% do CDI, com o CDI em torno de 14,25% ao ano, rende cerca de 18,5% ao ano. Parece pouco quando olhado assim, isolado, mas os juros vão se acumulando ano após ano. Em 2 anos, isso já representa um crescimento de mais de 40%. Quem aplica R$220 mil, achando que está numa margem segura abaixo dos R$250 mil, termina o período com mais de R$300 mil na conta. Passou do limite, e tudo que ultrapassou fica desprotegido se o banco quebrar nesse meio-tempo.
Em 3 anos, o efeito é ainda maior: o mesmo CDB pode fazer o valor crescer quase 66%. Até um valor mais cauteloso, de R$180 mil, pode ficar perto do teto ou passar dele, dependendo da taxa exata contratada.
Na prática, isso muda a pergunta que você deveria se fazer antes de investir. Em vez de "quanto tenho disponível hoje", pense em "quanto isso vai virar no vencimento". Quanto maior o rendimento prometido e mais longo o prazo, menor deveria ser o valor inicial que você coloca ali, para sobrar uma margem de verdade até o fim do contrato.
Conclusão: como não cair no CDB de alto risco
Ter dinheiro rendendo mais em bancos médios não é proibido, nem precisa ser evitado. O que precisa mudar é o cuidado antes de aplicar (ou de deixar aplicado):
- Confira se o valor total naquele banco, já contando o quanto ele vai render até lá na frente, continua dentro dos R$250 mil do FGC.
- Espalhe o dinheiro entre grupos financeiros de verdade diferentes, não entre "bancos" que pertencem à mesma empresa.
- Para valores mais altos, uma alternativa é o Tesouro Selic, que não tem limite de garantia nenhum, ainda que renda um pouco menos.
- Acompanhe notícia sobre o banco onde seu dinheiro está parado, não só a taxa que aparece na tela do aplicativo.
- Desconfie de qualquer falta de transparência, inclusive quando uma corretora simplesmente não responde por que classifica um papel de um jeito ou de outro, como aconteceu com a Ágora no caso Digimais.
O futuro do Digimais segue indefinido. O banco negocia sua venda com BTG e Safra, recebeu dinheiro do próprio dono para tentar equilibrar as contas e continua sob investigação da Polícia Federal. Para quem tem ou pensa em ter CDB da instituição, e para qualquer pessoa que veja um rendimento "bom demais" pela frente, fica a mesma lição: retorno alto sempre tem um preço, e esse preço é risco. A única forma de saber se vale a pena pagar é entender exatamente o que está em jogo antes da notícia estampar as manchetes, não depois.










