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Papo de mulher, dinheiro e a coragem de assumir o controle

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Falar de dinheiro nunca foi simples para mulheres. Não porque a gente não entende, mas porque, por muito tempo, nos ensinaram que dinheiro não era “papo de mulher”. Além disso, crescer sendo mulher no Brasil significa aprender cedo a se preocupar com todo mundo antes de pensar em si. E isso, claro, molda nossa relação com o dinheiro.

Eu escrevo sobre finanças e, mesmo assim, sou perseguida pela ideia de que é um tema “difícil”, “frio” ou “coisa de homem”, o que é estranho já que nem os homens parecem saber exatamente o que estão fazendo. Mas quanto mais eu entendo, mais eu percebo: falar de dinheiro é falar de autonomia, de segurança e, principalmente, de escolha. E isso tem tudo a ver com a gente.

Crescer sendo mulher também molda nossa relação com o dinheiro

Desde pequenas, muitas de nós aprendemos a economizar não para investir, mas para “não dar trabalho”. E também a ser prudentes, contidas, cuidadosas e quase nunca ousadas. Enquanto homens são estimulados a correr riscos, negociar salários e investir, mulheres são ensinadas a guardar e a pensar no amanhã com medo.

Isso aparece nas escolhas profissionais, nos relacionamentos e, claro, na forma como lidamos com o dinheiro. Quantas mulheres adiam investimentos porque acham que “não sabem o suficiente”? Quantas deixam a vida financeira nas mãos de outra pessoa porque acreditam que isso é mais seguro?

A verdade é que não existe neutralidade nisso. Existe contexto. E ele pesa.

Estatísticas sobre mulheres e investimento no Brasil

Não é sensação. É dado.

As mulheres ainda são minoria entre os investidores no Brasil, segundo pesquisa da ANBIMA, em parceria com o DataFolha. Mesmo que representem mais da metade da população, nossa presença no mercado financeiro cresce em ritmo mais lento do que poderia. E isso não tem nada a ver com falta de capacidade ou desinteresse.

Tem a ver com acesso, linguagem e incentivo.

Durante muito tempo, o mercado falou difícil de propósito. Usou termos técnicos, exemplos distantes da realidade e uma comunicação que não acolhe quem está começando. Quando a mulher chega, muitas vezes já chega se sentindo atrasada, devendo algo, como se tivesse perdido um trem que nunca foi anunciado pra ela.

E aí vem o mito mais injusto de todos: o de que mulher não gosta de investir. A gente gosta, sim. Só não gosta de ser tratada como exceção, nem de ouvir que “não é pra todo mundo”.

Quando o dinheiro vira instrumento de controle

Existe uma conversa sobre finanças que quase nunca entra nos relatórios: a violência patrimonial. Ela acontece quando uma mulher perde o controle sobre o próprio dinheiro ou nunca teve esse controle de verdade. Em muitos casos, isso só fica claro depois de um divórcio. Há histórias de mulheres que passaram anos contribuindo para a casa, abrindo mão da carreira, confiando que o patrimônio era “do casal”… e saíram da relação sem nada.

Nem conta, nem reserva e muito menos, segurança. Construir patrimônio próprio não é egoísmo. É proteção. É entender que amor não substitui autonomia financeira e que independência não é o oposto de parceria.

Dinheiro, nesse contexto, deixa de ser número e passa a ser escudo.

3 passos para educação financeira para mulheres

Ser protagonista das próprias finanças não é virar expert em investimentos. É parar de fingir que o dinheiro “se resolve sozinho” e começar a tomar decisões conscientes, mesmo que pequenas.

1. Saiba exatamente para onde seu dinheiro vai

Antes de investir, você precisa enxergar. Entender quanto ganha, quanto gasta e onde exagera não é sobre culpa, é sobre clareza. Dinheiro que você não acompanha sempre acaba decidindo por você.

2. Tenha um dinheiro que seja só seu

Pode ser pouco, mas precisa ser seu. Ter uma reserva ou um valor separado muda tudo: dá segurança, autonomia e liberdade de escolha. 

3. Aprenda no seu ritmo e pare de se diminuir

Você não precisa entender tudo agora. Finanças são uma habilidade, não um talento nato. Escolha boas referências, faça perguntas e comece. O erro não é não saber, é achar que esse assunto não é pra você.

Referências importam, e a gente finalmente tem as nossas

A boa notícia é que o cenário está mudando. E está mudando porque mulheres começaram a ocupar esse espaço com a própria voz, falando de dinheiro do jeito que a gente entende.

Hoje, quem quer aprender sobre finanças já não precisa se sentir deslocada. Existem criadoras, projetos e veículos que traduzem investimento para a vida real, sem julgamento e sem pedestal.

Alguns exemplos que mostram como esse movimento é coletivo e potente:

Nath Finanças


Fala sobre dinheiro a partir da realidade de quem ganha pouco, mostrando que organização financeira não é privilégio, é ferramenta de sobrevivência e ascensão.

Nathalia Arcuri (Me Poupe!)

Popularizou o tema investimentos no Brasil, usando humor, didatismo e uma linguagem direta, provando que finanças não precisam ser entediantes para serem sérias.

Podcast “O que tem na sua carteira” (Steal The Look + B3)

Une moda, comportamento e investimento, quebrando a ideia de que dinheiro precisa ser tratado num ambiente distante da cultura.

@suabffrica  (Karla Freitas)


Um espaço que conecta dinheiro, identidade, cotidiano e afeto, mostrando que falar de finanças também é falar de vida real.

Essas vozes fazem algo essencial: normalizam a presença feminina no dinheiro. Sem pedir licença.

Becky Bloom não estava tão errada assim

Pode parecer estranho citar uma personagem fictícia num texto sobre investimentos, mas Becky Bloom — de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom — é mais atual e relacionável do que parece.

Ela não é só “descontrolada com compras”. Becky representa uma geração de mulheres que nunca foi ensinada a lidar com dinheiro de forma saudável, até ser colocada num cargo que a força a pesquisar e escrever sobre finanças. Quantas de nós já não passamos por algum choque que nos colocou de frente com o problema?

A diferença é que, hoje, a gente começa a ter outras referências além da Becky. Mulheres que mostram que dá pra gostar de comprar, de moda, de viver e ainda assim investir, planejar e construir patrimônio.

Não é sobre virar outra pessoa. É aprender a jogar o jogo para poder continuar a ser você mesma.

Investir também é um ato político

Quando uma mulher investe, ela não está só pensando no futuro financeiro. Ela está reduzindo dependências, ampliando escolhas e mudando estatísticas. Está dizendo, na prática, que dinheiro também é papo de mulher.

Não existe investimento pequeno demais quando ele representa autonomia. Não existe “tarde demais” quando a informação finalmente chega. E não existe empoderamento real sem educação financeira.

Esse movimento não é sobre enriquecer rápido. É sobre poder sair de uma relação ruim, recusar um trabalho injusto ou simplesmente dormir tranquila sabendo que existe um plano.

Conclusão: Dinheiro também é sobre a gente

Falar de dinheiro sendo mulher é revisitar tudo o que nos ensinaram e escolher o que fica. Crescer sendo mulher molda, sim, nossa relação com o dinheiro. Os números confirmam o que a gente sente, a violência patrimonial mostra o risco de não falar sobre isso e as novas vozes femininas provam que existe outro caminho.

Eu escrevo sobre finanças porque acredito que informação muda o destino. Porque nenhuma mulher deveria descobrir tarde demais que poderia ter tido escolha. E porque investir, no fim das contas, é um gesto de cuidado consigo mesma.

Se esse texto serviu para que pelo menos uma mulher abra uma planilha, comece a falar de dinheiro com as amigas, faça uma reserva ou questione quem sempre cuidou do dinheiro por ela, ele já cumpriu seu papel. Dinheiro também é nosso. E a gente não vai devolver esse espaço.

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