Por que a Renda Fixa se desvalorizou?

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De algumas semanas para cá, muitas pessoas vêm nos perguntando por que seus investimentos em Renda Fixa se desvalorizaram. Afinal, não são investimentos em “renda fixa”, isto é, livres de risco e à prova de perdas? Mas não é bem assim. Como esse assunto é importante, principalmente em tempos de crise, decidimos falar sobre isso no podcast e no texto a seguir. Vamos explicar o que aconteceu em março com os Fundos de Renda Fixa e com alguns títulos do programa Tesouro Direto. Vamos falar um pouco também sobre as perdas na renda variável. Apenas o suficiente para uma breve análise e alguns alertas importantes sobre o comportamento das pessoas ao investir seu dinheiro.

Cenário atual

Sabemos que, no atual cenário, grande parte das pessoas tem preocupações financeiras muito mais sérias. Não com investimentos que se desvalorizam, mas com trabalho, emprego e renda que se deterioram. Mais que solidários, estamos trabalhando para fazer o que estiver ao nosso alcance.

Publicamos posts com orientações sobre como se proteger – incluindo as principais medidas que governos e empresas anunciaram em resposta à crise – e com recomendações de especialista sobre como pequenos empreendedores podem se planejar para enfrentar estes tempos.

Mas sabemos da importância de esclarecer e analisar algo que tem afetado a uma parte também expressiva do nosso público. E, mais que isso, acreditamos firmemente que os alertas que fazemos aqui poderão ser muito úteis para todos, quando a crise passar.

Entendendo o cenário

O ano de 2020 começou já com uma queda expressiva no índice que acompanha o movimento no mercado de Fundos Imobiliários – o Ifix. Após uma valorização de 36% em 2019, em janeiro de 2020 houve um movimento contrário, que pode ser explicado por diferentes fatores, e o índice fechou o mês com queda de quase 4%.

Pouco depois, veio à tona a crise do novo coronavírus. Primeiro na China, o que afetou fortemente a economia do nosso maior parceiro comercial, fazendo que nossa Bolsa de Valores também entrasse em queda, fechando fevereiro com perdas acumuladas de quase 10% no ano. E, logo em seguida, o vírus alastrou-se por todo o mundo, instalando uma crise sanitária e econômica sem precedentes.

A desvalorização dos investimentos em renda variável é algo facilmente compreensível, mesmo para investidores não tão experientes, dentro de um cenário tão caótico. Porém, em março, observou-se uma queda expressiva também nos títulos do Tesouro Direto, impactando os Fundos de Renda Fixa.

Isto, sim, provocou surpresa – e susto – em muita gente que investiu dinheiro nesses fundos, considerados os mais conservadores do mercado. Gente que não gosta de correr riscos, preferindo abrir mão da rentabilidade em favor da segurança, de repente viu seus investimentos se desvalorizarem. Não foi a primeira vez que isso aconteceu e provavelmente não será a última. Nós, inclusive, já esclarecemos dúvidas de investidores em previdência privada renda fixa assustados com prejuízos.

Por que o Tesouro Direto caiu?

Na verdade, títulos do Tesouro Direto se desvalorizarem é algo perfeitamente normal e já aconteceu muitas outras vezes. Desta vez, porém, o susto foi maior. Primeiro, porque a desvalorização foi alta – houve título com queda de mais de 30% em menos de 1 mês. Segundo, possivelmente, devido ao cenário caótico já instalado por conta da pandemia da covid-19. Para um investidor menos experiente, ver um investimento considerado seguro se desvalorizar cria uma sensação de “fim do mundo”.

Vamos explicar rapidamente o que aconteceu.

Os títulos do Tesouro Direto são negociados pelo Tesouro Nacional sempre com alguma taxa de rendimento, que varia de acordo com as percepções e projeções quanto ao cenário econômico – exceto o Tesouro Selic, cuja taxa de rendimento é sempre a Taxa Selic.

Quando a taxa de rendimento atrelada aos títulos – mais especificamente, ao Tesouro IPCA e ao Tesouro Pré-fixado – varia, o preço do título varia também.

Vamos fazer uma comparação. Suponha que você tenha uma agência de veículos 0 km, e que tenha à venda um determinado carro, no modelo 2020. Quando a fábrica deste carro lançar o modelo 2021, mais moderno e com mais recursos, o seu carro modelo 2020 se desvaloriza, aos olhos de um comprador. Vamos agora imaginar o cenário improvável de o modelo 2021 ter menos recursos – não tem a opção flex, por exemplo. Aos olhos do comprador, seu carro modelo 2020 ganha valor.

O mesmo acontece com os títulos do Tesouro Direto. Quando o Tesouro Nacional aumenta os juros de um título – o que vai impactar as próximas compras – o preço dele diminui.

O movimento dos números

Veja a seguir dois gráficos retirados do site do próprio Tesouro Nacional. Eles mostram o comportamento dos preços e dos juros do título Tesouro IPCA 2045 entre 23 de janeiro e 20 de abril.

Tesouro IPCA 2045 - Preços

Evolução dos preços do Tesouro IPCA+ 2045

IPCA 2045 - Taxas

Evolução dos juros remuneratórios do Tesouro IPCA+ 2045

Repare em como um gráfico é praticamente o espelho do outro.

Foi isso que aconteceu em março, provocando tanto susto e dúvidas. No dia 04/03, este título custava R$ 1.476,88. No dia 23/03, custava R$ 986,69. Uma queda de mais de 33% em menos de 20 dias. Fatos semelhantes aconteceram também com os outros títulos Tesouro IPCA e Tesouro Pré-Fixado.

Consequências da queda

Os títulos do Tesouro Direto têm data de vencimento – que, aliás, vem junto do nome do título, como se fosse um sobrenome. Nos casos do Tesouro IPCA e do Tesouro Pré-Fixado, isso faz toda a diferença entre ganhar ou perder dinheiro, em um cenário de desvalorização como o ocorrido em março.

Quando você compra um título – ou uma fração de título – do Tesouro Direto, a taxa de rendimento do título no dia em que você contratou é um direito seu. Se você mantiver esse título em seu poder até a data do vencimento, o Tesouro Nacional vai te pagar exatamente o que estava combinado. Portanto, é impossível você perder dinheiro nesse caso.

Ou seja, desvalorizações como a ocorrida em março só atingem seu bolso se você vender os títulos antes do prazo.

Por isso é tão importante saber exatamente como funciona o Tesouro Direto e comprar títulos com prazos que combinem com seu perfil e sua necessidade.

 

Fundos de Investimento em Renda Fixa

Para quem não compra diretamente os títulos do Tesouro Direto, mas tem cotas de fundos que investem neles, a situação é um pouco mais complexa. Isto porque a decisão sobre vender ou manter os títulos não cabe ao investidor, e sim aos gestores dos fundos. E, muitas vezes, eles precisam vender os títulos, não por acharem vantajoso, mas por necessidade.

Os Fundos de Renda Fixa são, teoricamente, os mais conservadores do mercado. Mas nem sempre isso quer dizer que sejam os mais seguros. Na verdade, alguns ativos de renda fixa são bastante arriscados. Fundos que investem neles assumem todo esse risco.

O próprio nome “Renda fixa” transmite uma ideia enganosa. Muitas pessoas confundem “Renda fixa” com “investimento pré-fixado”. Um nome que transmitiria melhor a realidade desses investimentos seria “Regra fixa”. Porque, na verdade, estes investimentos são aqueles cujo comportamento é definido por uma regra. E é preciso conhecer bem essa regra antes de investir.

Além disso, é importante procurar saber em que ativos o fundo costuma investir. Títulos do Tesouro Direto, por exemplo, podem sofrer as oscilações que nós explicamos aqui. Mas há outros tipos de ativos de renda fixa que oferecem riscos.

CDB, LCI, LCA, LF, RDC

Nessa sopa de letrinhas estão títulos de renda fixa de instituições financeiras. Pode ser pré-fixado, isto é, com rentabilidade definida previamente; ou pós-fixado, com rentabilidade definida por um índice econômico – geralmente IPCA, DI ou Selic – mais uma taxa.

Um dos riscos é a possibilidade de falência da instituição financeira. Para o cidadão comum, este risco é aliviado pelo Fundo Garantidor de Crédito – FGC, que paga até R$ 250 mil por pessoa, em caso de falência. Mas, para um fundo de investimento que invista nesses títulos, a falência do emissor pode ser um problema, pois o FGC não oferece cobertura a fundos.

Outro risco dos títulos privados é o prazo. Muitos deles só podem ser resgatados depois de alguns anos. Se o fundo de investimento precisar vender seus ativos para honrar compromissos, é possível que precise vendê-los abaixo do preço.

Debêntures

O nome é complicado, mas o conceito é simples. Trata-se de um título de renda fixa semelhante aos apresentados acima, porém emitido por empresas não financeiras.

No caso das debêntures, o risco de falência do emissor é maior, pois o FGC não dá cobertura a elas. Por isso é preciso ter atenção redobrada em relação ao emissor.

Aqui também há risco de prazo. Debêntures geralmente têm prazo de alguns anos. Caso o fundo precise vender as suas antes do prazo, certamente venderá abaixo do preço. Aliás, isso vem acontecendo – e muito – nos últimos dois meses. Há uma submodalidade de fundos de renda fixa, a de Crédito Privado, que investe mais em debêntures e nos demais títulos privados que citamos. Esse é um dos segmentos que mais têm sofrido em termos de rentabilidade na renda fixa, com fortes perdas de valor nas cotas. Se você é cotista de um fundo de renda fixa que tem crédito privado no nome, sabe bem do que estamos falando. Deu vontade de chorar quando recebeu seu último extrato bancário!

Se você quer ficar por dentro de mais detalhes sobre como escolher um investimento seguro e rentável, nós temos um conteúdo bastante completo que pode te auxiliar.

 

O que fazer de agora para a frente?

Repetindo o que dissemos na introdução, sabemos que, para muitas pessoas, as aflições agora são mais urgentes do que pensar em investimentos. Para essas pessoas, indicamos os posts em que falamos dos efeitos imediatos da pandemia e das possibilidades de planejamento para pequenos negócios.

Para quem pode pensar em investimentos, aqui vão algumas recomendações:

1.Reserva financeira

Quem acompanha o blog já nos viu falando inúmeras vezes sobre a importância de se manter uma reserva financeira para emergências. Pois bem, o cenário que estamos passando é exatamente o que chamamos de “emergência” para grande parte das pessoas. Uma situação inesperada e muito grave. É para situações assim que construímos uma reserva.

Por isso, o ideal é não passar sustos com ela. Já bastam as aflições que a própria pandemia vem nos trazendo. Ou seja, os títulos de longo prazo do Tesouro Direto não são os mais adequados para a reserva financeira. Melhor seria o Tesouro Selic, que tem rendimentos um pouco menores, mas é menos arriscado. Para curto prazo até a boa e velha Caderneta de Poupança serve. Afinal, a função da reserva de emergência não é brilhar no quesito rentabilidade, mas te dar sossego.

Simulador de Investimentos em Renda Fixa

Aproveitando, se quiser comparar todos essas aplicações financeiras, consulte nosso Simulador de Investimentos em Renda Fixa. Ele é totalmente gratuito. Basta fornecer algumas informações, principalmente o valor que deseja aplicar e o prazo que tem disponível. A partir daí, o Simulador procura a melhor opção em renda fixa.

2.Acostume-se com rendimentos baixos

Desde alguns anos atrás, a taxa básica da economia, comumente chamada de Taxa Selic, vem se reduzindo constantemente. Estamos no patamar mínimo histórico. Isso vem ocorrendo desde antes da pandemia e deve se manter de agora para a frente.

Isso significa que ficaram para trás os tempos em que era possível obter rendimentos razoáveis sem correr risco. Com a Selic bem próxima da inflação, obter bons retornos com pouco risco e boa liquidez está quase impossível. Ou seja, separe os investimentos por objetivos (reserva de emergência e outro) e prepare-se para correr riscos naquilo que não for reserva de emergência. Como costumamos dizer em finanças, “não existe almoço grátis”.

3.Cuidado com os gurus de investimentos

Cuidado com pessoas que dizem ter a solução para se obter bons rendimentos correndo pouco risco. Eles estão por toda parte.

Pela internet, por exemplo, há muitos deles. São muitos os sites dedicados a analisar e recomendar investimentos. Costumamos acompanhar vários deles. Tenho recebido diariamente mensagens recomendando ações de empresas que tendem a sair mais rapidamente da crise. Outros tantos dizendo que este é o momento de baixa histórica da bolsa de valores, e que em breve ela deverá se recuperar, e portanto este seria um momento interessante para se investir em renda variável.

Muitos desses analistas são pessoas bem formadas e experientes, com muitos anos de mercado financeiro. Ainda assim, recomendamos cautela em relação a eles. A crise que estamos passando é muito diferente de outras tantas que já vivemos. Diferente até mesmo da grande crise de 2008. Trata-se de uma crise sanitária gravíssima, que traz consigo uma crise econômica sem precedentes.

As economias de todo o mundo estão sendo fortemente atingidas. Muitas empresas – até mesmo as grandes – poderão ter dificuldade em se recuperar. Isso impacta diretamente o valor de suas ações. Além disso, os Fundos Imobiliários – a grande vedete do ano de 2019 – vêm sendo fortemente impactados, pois investem diretamente na construção e no aluguel de imóveis.

Não vemos razões consistentes para acreditar convictamente que em breve a crise vai passar e que o mercado voltará a se comportar como antes. O momento é de cautela e observação.

4.Informe-se

A recomendação que sempre fizemos está cada vez mais válida: informe-se. Mas, em primeiro lugar, procure conhecer a si mesmo, a sua realidade, suas possibilidades, necessidades e riscos. Depois, antes de tomar qualquer decisão em relação ao seu dinheiro, procure saber muito bem onde está pisando.

Conte conosco

E, claro, continue contando com o Educando Seu Bolso. Aqui você não encontrará indicações de investimento, mas informações e alertas sobre produtos e recomendações de comportamento.

E encontrará sempre uma porta aberta para compartilhar suas dúvidas e aflições. Navegue pelo nosso conteúdo. Se não encontrou algo que queria, fale conosco. Se encontrou, mas ainda assim restar alguma dúvida, fique à vontade para nos dizer. Queremos te conhecer melhor, e ajudar no que estiver ao nosso alcance.

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