Trágica Situação da Educação Financeira do Brasileiro

 O que é educação financeira?

Educação financeira é algo que o brasileiro em geral não tem. Novidade nenhuma nisso. Mas o que é educação financeira?

Grosso modo, educação financeira é uma forma de conhecer e planejar receitas e despesas, evitando surpresas e construir sonhos. A educação financeira ajuda a administrar dívidas e investimentos, bem como planejá-los.

Educação financeira, portanto, é saber lidar com seu dinheiro de forma saudável. É não gastar mais do que ganha. É fazer sobrar no fim do mês, e investir esta sobra. Antes, é saber a diferença entre poupar, guardar e investir. É não se deixar atolar em dívidas. É poder colocar a cabeça no travesseiro e não perder o sono por causa das contas a pagar, e demais despesas.

Este foi o tema da nossa conversa desta semana no programa Em Boa Companhia, da Rádio Inconfidência.

Fonte de informações

Veja que bacana vem a seguir, no próximo parágrafo: um banco, grande por sinal, ensinando um pouco de educação financeira.

Uma literatura interessante pode ser vista no site da Caixa Econômica Federal, através desta URL.

Através dela você pode aprender sobre juros, inflação, crédito, investimentos, tipos de investimentos, Imposto de Renda, investimentos de curto, médio e longo prazo.

Pode ver também formas de administrar seu dinheiro. Conceitos de despesa e receita, como manter o controle, aprender a gastar, usar as opções de crédito a seu favor, etapas de planejamento financeiro, como preparar para imprevistos, educar filhos, financiamento imobiliário, quando comprar a casa própria…

Fala também de cuidados com a compra de imóveis na planta, se vale a pena comprar imóveis para investir, se ganhar mais significa gastar mais, estilo de vida e riscos de endividamento, se ter dinheiro e crédito significa ter segurança financeira.

Ensina também a saber sair do vermelho: conhecer o tamanho da dívida, como funcionam os juros, como retomar o controle.

Ensina ainda como planejar o futuro. Como alcançar independência financeira, sobre previdência privada, seguros, e alternativas de investimentos.

Achei fantástica a iniciativa, especialmente partindo de um grande banco. Outros bancos também fazem isto: Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander são outros exemplos. Certamente não são os únicos, mas acredito que o conteúdo que estes 5 maiores oferecerem são bastante relevantes. Cada um puxando sardinha para seu lado, é verdade, mas é conteúdo gratuito e de certa forma muito esclarecedor.

Dados sobre a educação financeira no Brasil

Pesquisa recente do Banco Central mostrou mais uma vez dados alarmantes acerca da educação financeira do brasileiro. Vamos a alguns exemplos:

“64% dos brasileiros dizem pagar suas contas em dia”. Note: isso é o que dizem! A situação pode ser pior. Talvez tenham vergonha de expor a verdade. De qualquer forma, 36% assumem a inadimplência, o que representa mais de um terço da população pesquisada.

“18% responderam corretamente sobre juros compostos”. 82% falham no cálculo da matemática financeira que – naturalmente – afeta diretamente suas vidas. Mais de quatro quintos é muita coisa. Pelo menos em minha opinião. Juro é um conceito simples? Talvez não, especialmente em um país com nível de escolaridade tão baixo. Juro composto, então… Talvez esta situação calamitosa pudesse ser prevista sem a realização da pesquisa. Mas os números preocupam.

“56% não fazem orçamento doméstico ou familiar”. Isto significa que estão indo ao sabor do vento. O dinheiro vai fugindo pelos dedos de mais da metade da população brasileira, e eles nem percebem. É outro dado muito alarmante.

“50% sentiram que, alguma vez nos últimos 12 meses, as despesas foram maiores que a renda”. Duvido que metade da população brasileira tenha tido uma verdadeira emergência que exigiu o uso de recursos de forma não planejada. Duvido mesmo. O mais provável é que haja uma boa coincidência entre estes e os que não fazem orçamento. E, de repente, são surpreendidos com as despesas extrapolando as receitas. E mergulhando em dívidas.

 Dados envolvendo gêneros

“27% das mulheres são as únicas responsáveis pelas finanças da casa”. Há uns 40 ou 50 anos, quem pensaria em mais de um quarto das mulheres administrando financeiramente os lares brasileiros? Parabéns à mulherada que está dando conta do recado. Mais: se 27% são as únicas responsáveis, outras 28% participam – majoritária ou minoritariamente – do provimento do lar. Ainda que ainda tenhamos 45% dos homens como únicos provedores, o número é muito relevante. 55% das mulheres e 73% dos homens participam dos custos das residências. É mais da metade das mulheres contribuindo, algo impensável há 50 ou mais anos.

“34% dos homens pouparam parte da renda nos últimos 12 meses, enquanto 27% das mulheres conseguiram guardar recursos no período”. Seria a confirmação de que as mulheres são mais gastadeiras? Acho que não podemos afirmar isto sem saber o comparativo de rendas e/ou os valores absolutos poupados. Pode ser que sejam? Pode. Mas não podemos afirmar.

Analisando os dados

Outros dados relevantes poderiam ser elencados aqui, extraídos desta pesquisa. Mas vamos analisar estes primeiramente, pois já temos bastantes números.

Sobre pagar as contas em dia

Pagar contas em dia deveria ser dever de casa para todos. 36% de inadimplentes assumidos – qualquer que seja a razão – é percentual altíssimo. Isto precisa ser combatido com urgência. Mais de um terço da população reconhece que não consegue honrar seus compromissos financeiros. Sem dúvidas, uma parcela destes aceita isto como algo normal, o que é ainda mais absurdo.

Conheço um caso de uma pessoa que recebe mais de 20 salários mínimos líquidos mensalmente para manter uma residência com apenas 3 adultos e vive pendurada em dívidas. Isto é a antítese da educação financeira! É a total falta de educação financeira. Uma pessoa com renda discricionária tão alta não deveria ter o menor problema para equacionar sua situação econômica. Mas, antes, essa pessoa está totalmente enrolada. Deve a hipoteca da casa, o CDC do banco, o cheque especial, parentes e amigos. E deve muito! E não consegue pagar, acredite. Com isto, perde contato com as pessoas de quem gosta, e que gostam dela. Se afasta por vergonha ou por não ter mais desculpas a dar. Isto é a falta de educação financeira prejudicando seriamente a pessoa e, no limite, a sociedade.

Sobre o percentual de poupança

Baixo. Muito baixo. Menos de um terço da população conseguiu poupar algo em 2017. Isto também é consequência de falta de educação financeira. Uns não poupam por não conseguir fazer sobrar. Outros, porque as dívidas consomem todo seu recurso. Ainda há quem vive um eterno carpe diem, sem preocupar-se com o amanhã. Estes últimos talvez sejam os mais fáceis de se trabalhar: é possível que inserindo um pouco de medo possa resolver. E os outros casos? Será que não querem poupar também? Aliás, quem não quer ter tranquilidade financeira? Não consigo conceber algo diferente de uma resposta de desejo da estabilidade financeira.

Mas porque isto acontece, então? Porque não se esforçam mais para poupar? Porque esforçar-se nem sempre é fácil. Especialmente quando o resultado não vem, ou é pífio. Vejamos um exemplo prático, de um fundo de pensão.

Fundos de pensão são uma forma de poupança?

Muitos falam que não poupam mas esquecem-se dos fundos de pensão. Em nossa realidade atual (Brasil) temos fundos de pensão trabalhando com meta atuarial de 4,5% ao ano acima da inflação. Isto significa que quando ele se aposentar terá uma renda média mensal aproximada de um duzentos-avos do valor acumulado. Os mais conservadores falam em um duzentos e cinquenta-avos.

Tomando pelo lado mais conservador, significa que de cada R$ 1.000,00 acumulados em um fundo de pensão, o cidadão terá aproximadamente R$4,00 mensais pelo resto da vida, corrigidos pela inflação. R$ 1.000.000,00 asseguram R$ 4.000,00. Pode parecer pouco relativamente ao montante, mas deve ser enxergado como uma renda vitalícia. Muitos “atropelam” esta situação, sacam o dinheiro ao se aposentar e partem para o consumo.

Resumo da ópera

Os imediatistas tendem a passar necessidade financeira quando o recurso termina de ser consumido. Não percebem que cada milhão de reais, que não é pouco dinheiro, significa quatro mil reais mensais. Uma Mega Sena simples, cujo prêmio orbita em torno de 3 milhões de reais, é uma tentação para o consumo imediato, mas pode se transformar em uma venda vitalícia da ordem de doze mil reais mensais. Vitalícia significa para o resto da vida!!! Não considero pouco dinheiro para se viver, considerando que este valor será corrigido pela inflação…

Algumas empresas oferecem fundos fechados a seus empregados. Às vezes, até oferecem contrapartidas como 1 por 1 até certo limite. Isto significa que para cada R$ 1,00 colocado pelo empregado a empresa também coloca R$ 1,00. Normalmente há um limite neste aporte pelo empregador. O melhor caso que conheço, da ótica do empregado, tem a coparticipação em 12%. Coincidentemente, este é o percentual limite de abatimento no Imposto de Renda pela Receita Federal.

Título de capitalização e educação financeira

Ah, para os que falam em “poupar” através de títulos de capitalização… Corra! Corra quilômetros. Mas não deixe que te vendam isto. Particularmente nem considero investimento. Aliás, isto ser autorizado que bancos comercializem entendo ser um absurdo. Os vendedores apostam justamente na falta de educação financeira para venderem produtos como isto. Eu já troquei de gerente de banco porque ele ofereceu (e insistiu) que eu comprasse título de capitalização. E se o gerente da agência não trocasse o gerente da minha conta, trocaria de agência. E se não trocasse de agência trocaria de banco. O que não dá é para trabalhar com um profissional no qual você perdeu a confiança.

Sobre o empoderamento feminino

Espero não ser mal interpretado neste (e no próximo) tópico. Provavelmente, entretanto, serei. E muito. Por favor, tentem ler com o espírito desarmado.

O aumento do empoderamento feminino é um fato em nossa sociedade, acredito que isso seja indiscutível. Os números, inclusive, começam a refletir isto. Quando comparamos 73% e 55% percebemos que a distância percentual entre os provedores já está diminuindo. E a tendência é a redução paulatina desta margem até que – espero – cheguemos a números similares à margem de erro. Ou bem próximo a isto. Igualdade rigorosa é estatisticamente improvável. Pode ser que em alguns locais já até tenhamos a inversão, mas não vi este detalhamento na pesquisa.

Alguns indicadores, no entanto, permitem prever até mesmo uma virada: mulheres assumindo a dianteira no sustento da casa. É sabido que há uma relação direta com desvio padrão relativamente pequeno quando comparamos escolaridade e renda. Como o nível de escolaridade das mulheres tem sido sistematicamente maior que o dos homens, esta virada é possível. Depende de outros aspectos sociais, sim. E também. Mas é possível.

Vale observar que hoje, em média, uma mulher recebe aproximadamente a 76% do que um homem. Este dado é de levantamento feito no Brasil pelo PNAD em 2015. PNAD significa Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios.

Porque isto?

Porque estou apontando isso? Porque a forma de pensar feminina é diferente da masculina. A mulher tem um instinto de preservação maior do que o homem. Isto também pode (deve, talvez) ser culturalmente alterado com o passar dos tempos. Mas fato hoje é que o homem é mais individualista, assume maiores riscos e costuma pensar menos no futuro. Não vou tecer comentários quanto a esses dados para não ficar (mais) machista este tópico.

Mas, a menos que os dados estejam errados, a tendência é que com o tempo, a mulher passe a poupar mais. A inversão dos números apresentados (34% x 27% na capacidade de poupança) é viável em médio prazo. Isto pode acontecer se a desigualdade de renda for reduzida. Isto implicaria em aumento da renda discricionária feminina. Menor comprometimento percentual com as despesas relativamente aos homens. Com maior renda discricionária e maior instinto de preservação, acredito que as mulheres passem a investir mais que os homens.

Sobre o descontrole financeiro

Tratarei conjuntamente dois fatos agora: os 56% e os 50%. 56% dos que não fazem orçamento e 50% dos que são surpreendidos. Note que são percentuais próximos. Algo me leva a crer que isto não é mera coincidência. A falta de orçamento pode, sim, ser uma causa importante para a surpresa. Há um dito popular que apregoa que tudo o que se mede tende a melhorar. Eu acredito nisso. Se você mede e controla, tende a perceber com mais facilidade que ajuste precisa ser feito. Ainda que não se saiba precisa ser feito, sabe que algo precisa mudar. E se tiver humildade, ainda que não saiba, pede ajuda.

Note o termo “sentiu” na questão dos 50% que sentiram que tiveram gastos superiores. O verbo sentir pode denotar que pode ter tido ou não os gastos superiores. Denota descontrole de gastos. Sentiu. Mas não tem certeza. Houvesse controle orçamentário, este sentimento poderia se transformar em afirmação categórica.

Para terminar

Educação financeira é algo fundamental para se ter uma vida estável e equilibrada, não apenas economicamente. De certa forma, tudo orbita em torno de dinheiro, feliz ou infelizmente. Como aprender é algo sempre positivo, agrega valor e até qualidade de vida, sugiro que sempre busque este caminho. Adquirir conhecimento, inclusive financeiro, não deve lhe trazer prejuízos.

Aproveite para ouvir o podcast agora, clicando logo abaixo no play e até a próxima.

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