Empreendedorismo nos anos 50

Minha avó sempre foi uma grande administradora: em seu lar e em seu próprio estabelecimento. Criou o primeiro salão de beleza na cidade de Rio Casca, Minas Gerais, no ano de 1953.

Joana Dar’k sempre quis ser cabeleireira, mas não sabia o ofício. Naquela época, com 20 anos, as coisas não eram acessíveis, então, suas queridas amigas se ofereceram para que ela pudesse “treinar” e aprender a cortar, pintar e escovar os cabelos. Assim ela foi aprendendo e quando começou a receber pelo serviço prestado às amigas, conseguiu juntar um dinheiro e foi para Belo Horizonte para fazer o curso. Na época, já estava casada e foi grávida aprender o ofício. Ao regressar, abriu seu salão, seu primeiro empreendimento.

Tudo para ela sempre foi uma oportunidade de trabalho e de gerar renda. Assim, quando seus filhos nasceram e as despesas aumentaram, ela foi administrando suas finanças. Vendia as coisas que ela mesma produzia em casa: verduras de sua horta, ovos de suas galinhas, vasos de plantas que ela plantava. Conseguia, então, arcar com suas despesas e ajudar seu marido com as responsabilidades financeiras, além de trabalhar e administrar seu salão.

Os filhos já maiores passaram a ajudar em casa e no salão de beleza. Ela viu aí mais uma oportunidade: ensiná-los a lidar com o dinheiro. Joana pagava a eles pelo “trabalho”. Esse dinheiro ia para a latinha de talco – a latinha da economia. Ensinou aos filhos que esse dinheiro, quando atingisse uma boa quantia, deveria ir para a poupança do banco da cidade. Com parte dessas economias, eles próprios, junto com ela, poderiam reservar uma parte para comprar material escolar e brinquedos e roupas novas, com a outra parte.

Os empreendimentos foram crescendo e depois do salão Joana Dar’k, surgiu a primeira boutique de Rio Casca: a Dar’k Modas. Com uma visão à frente do seu tempo, Darquinha como era conhecida por todos na cidade, passou a ser referência nos conceitos de beleza, simpatia e empreendedorismo. Todos os concursos que ocorriam na cidade, recebia o convite para participar da comissão julgadora e via mais uma oportunidade de promover o nome do seu salão e de sua boutique. As coisas foram melhorando e ela abriu depois uma perfumaria.

Com uma tesoura e um pente, criou quatro filhos, teve coragem e constância em seus propósitos. Hoje, reside em BH e deixou em Rio Casca o seu melhor, recebeu uma Consagração Pública, ficando em 1º lugar na pesquisa de preferência e simpatia pública da cidade.

Matriarca da nossa família, ela transmite aos filhos e netos sua alegria de viver, a importância de enfrentar os desafios com determinação e como aprendeu sozinha a lidar com o dinheiro, se tornando uma grande empreendedora. Reafirma aos netos que isso se aprende de pequeno e sempre recorda a eles: “Se for comprar algo, pense antes e peça desconto sempre”.

Trabalhando desde os 20 anos, é bem aposentada e não abandonou o “comércio”. Produz em casa panos de prato para vender, seu hobby e, como ela costuma dizer, uma forma de ganhar mais um dinheirinho.

Um comentário

  • Que história legal Livia. Joana Dar’k é uma mulher à frente de sua geração. Quando ela era jovem não era comum ver mulheres trabalhando fora de casa e ainda mais com esta visão empreendedora e gestão de seu próprio negócio. Outro ponto que me fascina nela era a cumplicidade e companheirismo que mantinha no seu casamento. Andavam quase sempre juntos, trocavam opiniões, ambos trabalhavam de certa forma na mesma profissão, com salão de beleza e mantinham uma vida a dois bem mais parecida com a dos dias atuais do que à época de juventude, onde a mulher era bem dependente do homem. Ela é uma pessoa admiŕável.

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