Concentração Bancária… É boa para seu bolso?

Concentração Bancária… É boa para seu bolso?

Um fenômeno que nos últimos anos e décadas vem ocorrendo com muita frequência é a concentração bancária, certo? Vimos Fusões e Aquisições (ou M&A, em inglês) em número cada vez maior, tanto para os bancos quando para empresas de diversos setores da economia. Mas, será que essas concentrações são bem-vindas para seu bolso?

Inicialmente, é importante trazer à tona que monopólios ou oligopólios não são interessantes para o capitalismo, afinal, a concorrência é um dos mecanismos de desenvolvimento econômico, pois gera pesquisa, inovação e disputa pelos clientes por parte das empresas, sejam elas bancos ou não.

A monopolização é um caminho até natural em qualquer modo de produção capitalista e com os bancos não seria diferente. Desde a década de 90 vemos uma enxurrada de M&As no setor bancário. Porém, seria ideal que as instituições governamentais, como forma de proteger o consumidor e incentivar a livre concorrência, atuassem de forma mais ativa para evitar um número: Em 2015, pouco mais 80% de todo dinheiro emprestado para empresas e pessoas foram desembolsados pelas quatro maiores instituições financeiras do país – Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Bradesco. Isso mesmo! A cada R$ 100,00 que são tomados por empréstimos em nossa economia, mais de 80 são originários desses bancos. Há pouco mais de oito anos, esse percentual era próximo de 50%.

Para seu bolso, caro(a) leitor (a), é de certo modo prejudicial, pois, passamos, a cada dia, a ter menos opções para buscar um empréstimo / financiamento ou investir um recurso. Outro ponto é o desemprego. Pense comigo: um banco que tem uma agência na rua X compra outro banco que, também, tem uma agência na rua X. As agências são praticamente “vizinhas de parede”. Imaginemos que nessas duas agências, 60% dos clientes são comuns, ou seja, têm contas correntes nos dois bancos. É pouco provável que os clientes mantenham duas contas, certo? Assim, funcionários serão, provavelmente, demitidos.

Apenas para recordar, nos últimos anos o Santander comprou, em conjunto com o Bank of Scotland, o ABN Amro na Holanda, que era dono do Real, e assim adquiriu suas operações no Brasil. O Itaú se fundiu (ou comprou!) o Unibanco e, também, o varejo do Citibank. O Bradesco comprou o HSBC, que já havia adquirido a Losango. E o Santander se expandiu através de uma joint venture com o Banco Bonsucesso. E não para por aí! Até os bancos públicos se expandiram, em particular o Banco do Brasil com o Banco Votorantim e a Caixa, com sua participação no Banco Pan. Os dois casos mais recentes são HSBC-Bradesco e Citi-Itaú Unibanco. Ambos os compradores buscaram ampliar o segmento de alta renda e a expertise em investimentos que os gringos tinham. Excetuando os já citados, os bancos que deixaram de atuar no Brasil, passando por M&As, são Banespa, Bemge, Nossa Caixa, Credireal, Bamerindus, Sudameris, BCN, Excel-Econômico, Banerj.

Existe uma justificativa macroeconômica para que a indústria bancária seja concentrada. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a concentração brasileira não é muito diferente de outros mercados emergentes e que em países desenvolvidos é ainda maior. Para você entender o fenômeno, nos Estados Unidos, trinta e sete bancos se “transformaram” em quatro em apenas vinte anos (CitiGroup, JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo. Segundo o Federal Deposit Insurance Corporation, foram 182 fusões e 107 consolidações por ano de 2001 a 2011 na terra do Tio Sam. Infelizmente, é muito complicado para bancos estrangeiros competirem com o grandes no Brasil, mesmo com uma regulação muito rigorosa. É um “ambiente de raposas” que conhecem muito o seu “habitat natural”!

Mas, voltando ao meu, ao seu e ao nosso bolso… a concentração bancária traz riscos que vão de taxas de juros elevadas à oferta limitada de linhas de crédito. Os 80% citados anteriormente já comprovam um sério risco para uma competição saudável de mercado. Imagine se você precisar pegar um financiamento imobiliário para realizar o sonho da casa própria. Cinco anos atrás, você teria pelo menos oito boas opções (bancos com boa relevância no mercado). Atualmente, você tem apenas cinco, sendo dois bancos públicos. Com menos opções, a possibilidade de taxas menos competitivas é muito maior, afinal, tem-se menos concorrentes com um produto desejado: o dinheiro!

Talvez, com a tecnologia, uso de aplicativos e Internet Banking a concentração possa reduzir, pois, uma pessoa em uma pequena cidade do interior do Brasil que precisasse de um banco, obrigatoriamente, teria que se sujeitar ao que estava presente na sua cidade. Com as contas digitais em que tudo é feito pela Internet, essa mesma pessoa pode ter uma conta corrente em que o escritório fica a muitos quilômetros de distância.

Por isso, caro(a) leitor(a), de forma alguma a concentração bancária é boa. Pelo contrário! Contas digitais podem ser uma ótima alternativa. Os danos da falta de concorrência são muito prejudiciais e danosos ao mercado como um todo e ao nosso bolso. Isso faz com o spread seja cada vez maior. E, um sinal muito claro de que há algo errado é que as empresas que mais lucram no Brasil são os bancos e não empresas que têm alto investimento em tecnologia e inovação produtiva.

Autor

Quintiliano Campomori
Quintiliano Campomori é profissional na área econômico-financeira e professor há 11 anos já tendo atuado em bancos, empresas privadas e no setor público. Pretende trazer ao(à) leitor(a) e ouvinte esclarecimentos na luta pelos seus direitos em suas finanças pessoais, em buscar uma renda extra e em pensar o dinheiro como um meio e não um fim.

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