De quem é a culpa?

De quem é a culpa?

Frequentemente vejo comentários (geralmente de alguém que perdeu dinheiro, possivelmente muito) culpando terceiros pelo seu fracasso, seja o gerente do banco, seja um amigo, parente, conhecido, economista, especialista ou outro guru. Às vezes, mais de uma “sugestão”. Mas de quem é a culpa, afinal?

Bom, no meu ponto de vista, a culpa é de quem tomou a decisão de investir ou gastar de forma equivocada. Custei a aprender isto, e aprendi com muita dor, muita perda financeira. Quando comecei a operar na bolsa de valores, brincar de clicar em ordens de compra ou de venda ao sabor dos ventos, em simuladores, parecia divertido. Depois de algum tempo, comecei a colocar algum dinheiro – pouco, inicialmente – para começar a ganhar dinheiro com o meu “fantástico” conhecimento adquirido ao longo de meses. Eu me achava (talvez ainda me ache) melhor que a média, e ganhar dinheiro neste mercado chamado bolsa de valores parecia muito fácil.

Procurei um gerente de banco amigo meu, que passou as primeiras instruções e indicou outros dois profissionais na instituição. Aprendi muito com eles. Fosse eu mais humilde à época, teria aprendido muito, mas muito mais. O problema é que jovem geralmente é um bichinho muito arrogante, e acha que sabe tudo. E eu não era diferente. Resultado: dias (sim, poucos dias) depois de começar a conversar com eles, já estava lá o Daniel operando na Bovespa…

Minhas primeiras operações foram um sucesso! Com o mercado, à época, em tendência de alta, praticamente qualquer coisa que se comprasse seria vendido posteriormente com algum lucro. Resultado: se eu já me achava o bom geral, comecei a me achar insuperável. E os lucros foram se somando, e a maioria das operações eram bem sucedidas, e o sucesso subindo à cabeça, decidi operar opções de compra, afinal, queria alavancar meus lucros mesmo com pouco dinheiro. Para quem não sabe, a grosso modo, opções são direitos de compra ou deveres de venda de determinada ação. Por exemplo, se uma determinada ação está custando R$10,00, é possível que se encontre opções de compra desta ação (direito de comprar a ação a determinado valor em determinada data, chamada de data de exercício) a R$11,00 alguns dias antes do vencimento por, digamos, R$0,20. Em outras palavras, se não comercializar este direito antes da data, você só ganhará dinheiro se o valor da ação no dia do vencimento for superior a R$11,20 (R$11,00 que você terá que pagar pela ação se for exercer seu direito + R$0,20 que pagou pela opção de compra) + os custos de compra (corretagem, emolumentos, etc.).

Como o mercado estava em forte tendência de alta, não era improvável pensar que a ação pulasse de R$10,00 para R$12,00 fosse algo possível. E acontecia, de fato. Com isso, o esperto aqui passou a comprar por R$0,20 e vender a mais de R$1,00 (ação orbitando nos R$12,00 próximo ao vencimento) as opções de compra. 400% de lucro, ao invés de 20% se fosse comprar apenas as ações propriamente ditas. Resultado: “sou o melhor e, agora sim, vou ficar rico!”. Ganhei muito, perdi pouco, e a arrogância só crescendo. Comecei a colocar mais dinheiro no meu plano infalível de ficar rico (planos tão infalíveis quanto os do Cebolinha contra a Mônica, personagens do Maurício de Souza). Vivia e viajava, era sensacional, como era para Vital com sua moto eternizados por Herbert Vianna. Cheguei a ganhar – e não é exagero – mais de 100% do capital investido em um mês. Até que um dia a coisa começou a virar. Mercado, como sabemos, não sobe eternamente. Resumindo: em determinada sexta-feira, véspera de vencimento de opções, perdi o equivalente a um carro em apenas uma operação. Mas isso não era nada, afinal eu era o bom geral. Fui atrás de recuperar o prejuízo no mesmo dia. Resultado? Desastre total. Neste dia eu não entendia o que acontecera exatamente. Só via meu saldo desaparecer de maneira cinematográfica. Neste dia eu chorei. Literalmente. Não perdi tudo o que havia ganho até então por mera sorte: o mercado fechou antes de eu conseguir colocar uma ordem surpreendentemente estúpida, mas que para mim à época parecia ser a redenção. Tentei pegar dinheiro emprestado para investir, mas graças a Deus não consegui.

Naquele momento entendi porque tantas pessoas falavam que bolsa de valores é loteria. Não é, adianto. Bolsa é loteria para quem, como eu, não sabia o que estava fazendo. Praguejei contra meu gerente de banco, contra as demais pessoas que me incentivaram a investir em bolsa, etc. Passei o fim de semana pensando no que havia acontecido, não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia dormir, não conseguia comer. Na segunda-feira seguinte não consegui operar. Nem na terça. Pensei demais naqueles dias. Refiz mentalmente as operações. Tinha que conseguir entender porque minha fórmula infalível falhara. Alguém armou contra mim, só poderia ser! Eike Batista descobriu que eu caminhava para ser mais rico do que ele e resolveu me boicotar! Até coisas dessa natureza, absurdas ao extremo, passaram pela minha cabeça naqueles dias. Doeu, doeu, doeu. Dói até hoje, toda vez que me lembro do que fui capaz de fazer.

De quem era a culpa, afinal, por toda a minha desgraça? MINHA. Só minha! A corretora não tinha culpa alguma, os gerentes também não, meus amigos idem, minha família muito menos. A culpa pelo meu sucesso e pelo meu fracasso tinha apenas um CPF: o meu.

Hoje ainda opero na bolsa? Sim. Sem dúvidas. Mas com muito mais responsabilidade, muito mais maturidade. Hoje sei que não vou ganhar sempre. Às vezes vou perder muito, mas monto estratégias com cabeça fria nas quais as relações risco x retorno sejam favoráveis a mim. Tenho tido resultados bons, graças a Deus. Na média, estou no lucro, também graças a Deus. Quando vejo, no entanto, iniciantes arrogantes e gananciosos enxergo justamente a minha trajetória. Temo quando chegar o dia em que perderão. Pode ser mais cedo ou mais tarde. Podem perder mais ou menos. Mas certamente chegará o dia em que perderão uma grana considerável, e provavelmente não estarão preparados para o baque. Espero que também tirem como lição deste dia que a culpa pelo erro foi deles, exclusivamente deles, que não procuraram aprender tudo o que precisavam antes de começar a operar. Espero que não percam tudo o que conquistaram. Espero que tenham humildade para aprender. E espero, sobretudo, que não desistam: a oportunidade é única.

Até a próxima.

Autor

Daniel Meinberg
Autor do livro “O Melhor Investimento pra Você – Princípios de Educação Financeira”, editora AR, 2015, que trata de forma clara para o leigo sobre diversos produtos focados em investimentos. Ministrou palestras sobre educação financeira.

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