A crise, as dívidas e a cobrança “light”

A crise, as dívidas e a cobrança “light”

Os números são assustadores! 59 milhões de brasileiros atrasam dívidas. O estoque da dívida dos inadimplentes atingiu R$ 255 bilhões. Pagamentos em atraso (entre 30 e 60 dias) com bancos (financiamento de carros, imóveis, etc.) ou contas de luz, água, telefonia e débitos generalizados com o varejo. Veja a reportagem da Folha de S. Paulo.

O número de inadimplentes vem aumentando. Em agosto, eram 57,2 milhões de pessoas, com 246 bilhões de dívidas. Decorrência direta da crise, com pitadas importantes de deseducação financeira. As causas são diversas, mas predominam a perda de emprego – 26% e o descontrole financeiro – 17% (pesquisa realizada com 8.288 consumidores – também disponível na Folha de S. Paulo). Só depois vêm motivos como esquecimento de pagar – 7%; empréstimos do nome para terceiros – 7%; despesas extras com produtos e serviços – 7% e alta da inflação e preços – 5%.

Há casos que assustam. Por exemplo, uma professora universitária – em relato na Folha de S. Paulo – entrou para o clássico grupo dos superendividados, com um débito de R$ 1,1 milhão. Os superendividados são consumidores com prestações muito maiores do que o seu salário (comprometem, por exemplo, muito mais do que 30% da renda, que é o percentual recomendado). Os gastos foram feitos de 2013 para cá. Fizeram a dívida pular de R$ 300 mil para mais de R$ 1 milhão. Despesas extraordinárias contribuíram para o processo, como a doença de um familiar. Além disso, como a professora tinha três fontes de renda, sempre conseguia novos aportes do banco. Mas sempre contratava as linhas mais caras. Resultado…

De qualquer forma, um número expressivo de consumidores, quase 67%, afirma querer negociar as dívidas atrasadas até o final de dezembro. Nessa linha, aparecem novas start-ups que adotam uma relação mais amigável com os inadimplentes, uma tentativa de aumentar as renegociações com uma cobrança “light”.

São elas: a Acordo Certo, a Kitado, a Quero-Quitar e a PagoSim. Todas já bem conectadas com empresas que possuem uma base grande de clientes, como TV’s por assinatura e bancos.

O ponto essencial da nova forma de cobrança é comportamental. Ao invés do consumidor ser procurado por uma agência de cobrança dizendo que, “se não for feito o pagamento, ele será alvo de um processo”, as novas empresas empregam outra tática, como: “conheça as opções de negociação que você tem”.

A ideia é a de que a iniciativa da renegociação deve ser mais do consumidor do que da empresa de cobrança. Ainda que haja algum estímulo para fazê-lo. A insistência e o medo podem ser revelar cobradores ineficientes.

Assim, a Kitado entra em contato com os devedores e antes de tudo pergunta se eles têm mesmo a dívida em questão. Se os consumidores respondem não, a empresa não insiste. A opção da renegociação deve partir do devedor. Dos que assumem a dívida, 70% acabam renegociando.

Na QueroQuitar, quem faz a proposta de renegociação primeiro é o consumidor e não a empresa. De novo: uma alteração nas regras de incentivo. A proposta pode ser aceita ou o consumidor pode receber uma contraproposta. O cumprimento da proposta é mais efetivo quando o próprio consumidor encabeça o processo.

Resumão: Um universo enorme de brasileiros está pendurado em dívidas. Os números assustam. A crise piora sensivelmente o cenário. No entanto, muitos afirmam querer renegociar as dívidas. Uma alternativa interessante são as novas empresas de cobrança de dívidas pela internet. A renegociação promete ser mais amigável e compensar financeiramente. E não “custa” nada tentar. Até a próxima!

Autor

Leandro Novais
Leandro Novais é professor adjunto de Direito Econômico na UFMG. Em seu espaço, pretende aliar um pouco de direito, inovação e economia, além de uma pitada de economia comportamental, para ajudar o leitor na sua compreensão econômica e nas suas escolhas financeiras. Seu lema: "o mundo a partir das escolhas de cada um". Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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