“Mini” casos da vida real – João Henrique

“Mini” casos da vida real – João Henrique

Hoje pela manhã, quando desci para o momento de pátio com meus alunos de 10 e 11 anos, deparei-me com uma situação muito interessante, que me chamou muito a atenção e não resisti. Realizei uma entrevista com o João Henrique, um pequeno de outra turma, de seis anos, muito engraçado, com um vocabulário muito bom e uma capacidade incrível de se expressar.

João Henrique e seu amigo brincavam de pegar sementes que caíam do coqueiro da nossa escola. Cada semente que eles juntavam, na brincadeira, tinha o valor de R$500,00 e se por acaso ela ainda estivesse fechada o seu valor era maior, valia R$1000,00 pois esta era ainda mais difícil de encontrar. Encantei-me com a brincadeira e como ele coordenava a atividade com convicção. Então, comecei a puxar conversa e nosso assunto rendeu bastante. Perguntei se ele gosta de dinheiro, por que ele estava brincando de dinheiro e não de correr, saltar, pular.  João Henrique contou-me que ama brincar de dinheiro, de mentira e de verdade. Já emendei em outra pergunta e questionei se ele junta o dinheiro dele, se ele junta por juntar ou se quer comprar algo com o que junta. Para minha surpresa ele disse:

-Eu adoro juntar dinheiro e agora estou juntando porque vou comprar um ar-condicionado!

– O quê? – Perguntei espantada. – Mas você precisa de um?

-Claro, sabe por quê? Ano que vem, o calor será muito maior e para dormir fresquinho, quero que o ar do quarto fique geladinho.

-Então, João, você poderia me contar a sua história de como você faz para juntar seu dinheiro? Você ganha ou você “trabalha” colaborando na sua casa?

-Melhor eu começar do início né? Quando comprei meu tablet ano passado!

-O quê? Você já comprou um tablet? Mas juntou só para isso? Como conseguiu? Não tinha vontade de comprar outros brinquedos, um picolé? Nada? – Minha vontade de fazer perguntas àquela criança era enorme.

Ele deu uma risada gostosa e respondeu:

-Vontade, tive sim, mas minha família me ajudou. Às vezes eu passava em frente a algum lugar e queria algo e a mamãe ou a minha babá me lembravam do meu tablet, e aí a vontade passava.

-E como você ganhou seu dinheiro? Você tinha mesada?

-Eu pedi mesada para a mamãe e ela disse que ia olhar com o papai se eu já podia ganhar, ele disse que sim e então ela passou a me dar R$5,00.

-Todos os dias?

-Não, toda sexta-feira.  Ano passado a mamãe tinha dinheiro, então eu tinha a minha mesada, e quando ajudava em casa em alguma tarefa, ganhava um pouco. Papai também me deu um pouco de dinheiro e meu irmão Guilherme, me deu R$17,00. Consegui juntar R$530,00 e papai me levou ao shopping para comprar meu tablet. Não era o que eu queria, mas ele tem tudo para eu baixar meus aplicativos e jogar meus jogos. (Sim, João Henrique disse com estas palavras).

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Então, depois do início explicado, perguntei sobre o objetivo deste ano: o ar-condicionado.

Ele, mais do que depressa, explicou que o país este ano está em crise, o jornal fala disso toda hora, então vai ser mais difícil juntar porque a sua mesada diminuiu. Ele está ajudando mais em casa e já conseguiu juntar R$130,00. Seu objetivo é para o ano que vem e não para este, por que a cada ano fica mais quente e até lá ele já terá todo o dinheiro que precisa.

Aproveitei a oportunidade para trabalhar alguns outros conceitos sobre Educação Financeira com ele, que ficou muito atento e interessado sobre tudo que eu expliquei. Disse para sempre que juntar algum dinheiro, não gastar tudo com o seu objetivo, ter uma outra poupança da poupança. Ele disse que só ele gosta de juntar dinheiro em casa, o irmão não gosta e ele contou que aprendeu sozinho.

Então, como educar nossas crianças que não nascem com esta vontade? Como estimular a “amizade” saudável com o dinheiro?

Contei ao João, na linguagem apropriada à sua compreensão, que tenho comprovado em minha vida pessoal que existe uma só vontade em nossa vida, a vontade que nos mobiliza energias e esforços para o bem, para o correto, para o justo, para crescer e aprender. As outras vontades que nos desviam do que idealizamos vem acompanhada de indisciplina e não são o nosso desejo real daquilo a que nos propomos inicialmente, todos nós nascemos para sermos bons, se estamos fora deste caminho, estamos desviando dos nossos objetivos. No campo material, por exemplo, para os adultos, comprar um carro, realizar uma viagem, o sonho da casa própria, uma vida saudável, são vontades de algo em longo prazo, que exige disciplina e perseverança… Para o pequeno João, primeiro o seu tablet, agora o seu ar-condicionado… E o que mais aguarda este menininho de seis anos? Uma vida inteira pela frente, com o dinheiro a seu favor e a sua vontade focada no que ele considera importante, sem se desviar. E, para tudo o que ele quisesse realizar, ele teria que planejar e ter disciplina para executar.

Quando meus alunos de 10 e 11 anos chegaram, ainda perguntaram:

-”Professora você acha que esse menininho está entendendo isso que você está falando?”

E comecei a rir respondendo. Meus amores, quem me contou tudo isso foi ele, estou apenas confirmando as informações para escrever para o blog a coluna semanal sobre Educação Financeira… E demos todos uma boa gargalhada!

 Joao_Henrique

Autor

Lívia Senna
Lívia Senna é mestre em Gestão e Administração Educacional pela Universidade de Coimbra, em Portugal, e pedagoga graduada pela UFMG. Atua na área de Educação Básica e Ensino Fundamental há 12 anos. Educadora também na área de graduação, concentra seus estudos e pesquisas na área de Educação Financeira para Educação Infantil e Formação de Professores.

3 comments

  • Que gracinha esse menino. Dando aula de finanças em muito marmanjo.. rsrs
    Achei incrível essa determinação e as conquistas dele. Preciso melhorar com certeza a relação dos meus filhos com dinheiro, e achei essa historia bem motivadora.

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