Qual é a sua propensão em dar calote?

Qual é a sua propensão em dar calote?

Arrumando a papelada no trabalho, entre recortes de jornal e matérias de interesse (ainda em fase de transição completa para o mundo digital), acabei por encontrar uma antiga, mas oportuna, reportagem da Folha de S. Paulo, com o seguinte título: “Psicologia revela propensão a dar calote”.

A matéria se baseava em uma tese de doutorado defendida na USP, em 2011, por Pablo Rogers, que propunha uma metodologia de análise de crédito com base em variáveis psicológicas. A reportagem pode ser vista aqui. A tese de doutorado pode ser lida aqui. A pesquisa inclusive venceu o Prêmio Revelação em Finanças do Ibef-SP (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças).

A maior parte das instituições financeiras analisa o risco de calote com base em variáveis estatísticas de natureza socioeconômica – como idade, renda, anos de trabalho e posse de imóvel. Correto, é a análise tradicional. No entanto, hábitos de consumo, calcadas em variáveis psicológicas dizem muito de você e sobre a eventual propensão em não pagar dívidas ou ser desorganizado financeiramente. Ou seja, a psicologia econômica completa a análise tradicional.

Por exemplo, você fuma ou bebe mais do que quatro doses ao dia? Acredita que presentear a sogra é artigo de primeira necessidade (jamais um luxo)? Se você respondeu sim, segundo a pesquisa, a chance de ter seu nome incluído no SPC (Serviço de Proteção de Crédito) ou Serasa é maior do que aquele que respondeu não.

Outras: você costuma ir ao shopping – só para “espairecer” – após uma semana tumultuada no trabalho? Na linha, “já me senti ansioso ou nervoso nos dias em que não fiz compras”; ou esconde a fatura do cartão de crédito do cônjuge? Isto para não revelar o valor de quanto paga em algumas compras. Sua chance de entrar em uma lista de maus pagadores aumentou.

Há uma situação talvez pior. Você paga as faturas do seu cartão de crédito em dia. Mas acha que, aconteça o que acontecer, bruscas alterações econômicas, perda de emprego, alguma imprevisibilidade de saúde, você sempre conseguirá se safar dos apuros. Efeito claro do excesso de otimismo e de confiança. Uma das principais marcas das pessoas com maior risco de crédito.

O que a pesquisa demonstra é que um questionário que leve em consideração tais variáveis – e elabora perguntas desse tipo – é mais certeiro em revelar a propensão de pagamento das pessoas. Por quê? Porque as perguntas fazem mais sentido para os consumidores. Estão mais conectadas com a realidade e vivência deles.

Ao final, a pesquisa confrontou dados do teste psicológico aplicado a mil pessoas no Estado de Minas Gerais com a situação cadastral de cada entrevistado nos serviços de proteção ao crédito. Conclusão: os compradores classificados como “compulsivos” – seguindo a metodologia proposta – apresentaram maior probabilidade de se encontrar no grupo de inadimplentes.

E só para terminar: recente pesquisa do SPCBrasil evidencia que 40% dos consumidores brasileiros vivem além do seu orçamento. O padrão de vida deles não cabe no orçamento. Ou seja, a propensão ao calote é maior.  Perguntinha: você se encontra entre eles?

 

Autor

Leandro Novais
Leandro Novais é professor adjunto de Direito Econômico na UFMG. Em seu espaço, pretende aliar um pouco de direito, inovação e economia, além de uma pitada de economia comportamental, para ajudar o leitor na sua compreensão econômica e nas suas escolhas financeiras. Seu lema: "o mundo a partir das escolhas de cada um". Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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