“Não acredito em educação financeira”

“Não acredito em educação financeira”

Você se assustou? Essa afirmação foi feita por Dan Ariely, especialista em economia comportamental e psicologia, professor da Duke University, para reforçar que as pessoas evoluíram muito pouco na relação com o dinheiro. Veja aqui a entrevista dele.

 Não é esta naturalmente a compreensão do blog. Caso contrário, o blog não deveria nem existir. Recentemente, aqui mesmo, já tratei do assunto, perguntando: “A educação financeira cria consumidores e investidores melhores?” Em razão da chamada de Dan Ariely, resolvi voltar ao assunto.

 Há um grupo importante de economistas e psicólogos, especialistas em economia comportamental, demonstrando que uma sofisticada investigação dos processos de tomada de decisão (no nosso caso, de compras, de poupança, de investimento, etc) podem sim fazer a diferença. Para melhorar a tomada de decisão, compreendendo os nossos erros sistemáticos e contínuos, e igualmente propondo soluções (ferramentas, que o blog tem se dedicado com afinco) para resolver problemas, controlar gastos e realizar investimentos mais acertados.

 Só para citar dois aqui: Daniel Kahneman, psicólogo israelense, ganhador do prêmio Nobel de Economia, com o seu sugestivo livro “Rápido e Devagar – Duas formas de pensar” (o autor pontua que as decisões de consumo, por exemplo, são muito mais emocionais do que racionais); e a dupla americana Richard Thaler e Cass Sunstein, com o livro “Nudge”, buscando investigar determinadas ações (ou empurrões) que favorecem uma tomada de decisão mais equilibrada.

 Seguindo essa linha, pesquisei aqui – para fazer uma listinha, que o blog também curte – os 7 piores momentos para tomar uma decisão financeira. Veja se não faz um pouco de sentido:

 1.      Na alegria – os momentos felizes devem ser curtidos, naturalmente. Mas não pense em grandes decisões financeiras nessa situação. Na euforia, seguramente sua avaliação otimista pode se traduzir em excesso de confiança. Você calcula equivocadamente os riscos, reduzindo-os. Aproveite sua felicidade e não a misture com importantes decisões financeiras. Se seu time ganhou, divirta-se, e deixe a carteira bem longe!

 2.      Na tristeza outro sentimento extremo. Outro cenário em que a decisão é fortemente emotiva. Você tenderá a tomar decisões que confortem os seus sentimentos ou você deixará de aproveitar boas oportunidades, afundado na depressão. Por exemplo, manter em funcionamento a antiga loja do avô – em respeito à sua memória – pode revelar uma grande dor de cabeça no futuro.

3.        Na pressa – aqui a regrinha é clara, Arnaldo: no assunto tempo, quanto maior o valor financeiro da compra/investimento, mais tempo deve ser gasto na decisão. Decisões apressadas privam você da racionalidade. Não por outra, as lojas abusam das promoções “só hoje” ou “queima de estoque”. Quanto mais privado de tempo para decidir, pior deve ser a sua decisão. Leve meses para decidir a compra do seu imóvel e produtos eletrônicos mais caros. Simule a compra e se veja nela.

4.      Na dúvida – a dúvida pode revelar não só indecisão, mas insegurança. Você pode estar cauteloso por falta de informação sobre o produto. É o que os economistas chamam de “assimetria de informação”. Você conhece menos do produto do que o vendedor. Procure se informar, pesquise e investigue a sua compra. Você decidirá com muito mais confiança.

5.      Na pressão – em um momento crucial para a tomada de decisão, surgem inúmeros palpites e indicações, de amigos e familiares. Se o ambiente decisório não é tranquilo, tais sugestões vêm carregadas de tom emocional. O oposto de uma boa decisão. Se não conseguir encontrar um diálogo relativamente neutro e isento, a melhor solução é procurar a porta mais próxima e resguardar-se.

6.      No escuro – decisões financeiras mais relevantes devem ser feita às claras. Quando o objetivo não está muito claro, o processo decisório pode se revelar duro e frustrante. E sem coerência, o que pode desanimá-lo ainda mais. Seu objetivo é morar fora do país? Repense a compra do imóvel. Acabou de se casar e não sabe se quer criar raízes na cidade onde mora? Viva de aluguel. Decisões focadas revelam maior comprometimento e o arrependimento do esforço é menor.

7.      Na tempestade – só para variar, decidir na crise é mais difícil. Embora oportunidades apareçam. Planeje sua viagem adiantando-se quanto à cotação do dólar. Ao abrir um negócio, pesquise a demanda por seu produto e se as pessoas estão dispostas a pagar por ele. Comprar na bolsa, estude para ver o momento mais favorável.

 Com esta listinha, que exige autoconhecimento e disciplina, a economia comportamental pode sim te ajudar a tomar decisões mais equilibradas. E isto não vem sem educação. Será que você ainda não acredita em educação financeira?

Autor

Leandro Novais
Leandro Novais é professor adjunto de Direito Econômico na UFMG. Em seu espaço, pretende aliar um pouco de direito, inovação e economia, além de uma pitada de economia comportamental, para ajudar o leitor na sua compreensão econômica e nas suas escolhas financeiras. Seu lema: "o mundo a partir das escolhas de cada um". Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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