O “valor do amanhã” em três historinhas

O “valor do amanhã” em três historinhas

“Todas as famílias felizes são parecidas;

as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” – Léon Tolstói

Poupança! Poupança! Poupança! Na administração de suas contas, a capacidade de poupar do brasileiro é baixa, como também é baixa capacidade de poupança do governo. Este é um dos fatores mais importantes que revelam as dificuldades de crescimento das famílias e do país.

Além de recursos limitados, em tempos de crise (para 16%, orçamento acaba nas despesas essenciais, mostra o Valor Econômico), o fato é que você (brasileiro) ainda não desenvolveu o comportamento e o hábito da poupança/investimento (veja a regrinha do 1, 3, 6, 9 aqui no blog). O dilema entre consumir agora, poupar depois ou poupar agora, consumir depois geralmente é ganho pelo consumismo imediato!

Inspirado nisso, no instigante livro “O Valor do Amanhã”, do economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que dá título ao post, e também no recente e já recomendado livro “História do Futuro – o horizonte do Brasil no século XXI”, da jornalista de economia Míriam Leitão, vou adaptar aqui três historinhas relatadas pela jornalista em seu livro.

São três mulheres: Adriana, Marina e Wedna. Vivendo nesses 20 anos de pós-estabilização. Mas vivendo igualmente nesses últimos anos, com uma forte política de incentivo ao consumo, baseada no endividamento. Veremos como faz falta a educação financeira.

Adriana é faxineira. Fez escolhas típicas do descontrole no uso do crédito. Ela trabalha duas vezes por semana. Ganha R$ 700,00. Com o salário de pedreiro do marido, a renda do casal vai para R$ 2000,00. Na classificação do governo, trata-se de uma família classe média baixa. Ela financia tudo, até as compras de abastecimento de casa. Sempre faz as compras do mês pagando de duas ou três vezes. “Eles falam que é sem juros, por isso vale a pena. Estou sempre pagando uma parcela do supermercado, às vezes mais de uma.

Ela já financiou compra de celular e roupa. Segundo o relato de Míriam Leitão, Adriana estava pagando uma prestação de sete meses em uma loja de departamentos de apenas de R$ 35,00, fazendo obra na casa e pagando uma conta de roupa, dívida antiga. A compra tinha sido de R$ 900,00, mas ela não conseguiu pagar. Renegociou e aceitou uma prestação de R$ 250,00 por mês, durante dez meses. Está sendo extorquida ao pagar 177% a mais do que conta original! Diz que não calculou os juros. “Me enrolei na hora de pagar e fiquei devendo, mas meu nome não foi para o SPC. Fui lá negociar com a loja e estou pagando parcelado. Gosto muito da roupa nova. É a que eu mais gosto.”

Tinha um sonho de se mudar para um local melhor no mesmo bairro onde mora, em Duque de Caxias (RJ). Como não abriu mão dos sonhos de consumo, a mudança não ocorreu e até as obras de reforma da casa antiga vão se arrastando.

O caso de Marina é diferente. Irmã de Adriana, também é faxineira. Mora em Duque de Caxias (RJ). Três filhos, dois deles estudando em escola pública. Ela consegue poupar, apesar de todas as circunstâncias. Ganha R$ 1400,00, fazendo faxina em quatro casas. Com o salário de R$ 900,00 do marido, vigilante do campus da UFRJ, está igualmente na classe média baixa.

Com esta renda, ela consegue arcar com todos os custos da família, e ainda guarda R$ 300,00 por mês. Deixa o dinheiro na conta corrente. Tem trauma de banco, depois de um empréstimo. O marido ficou desempregado e o nome dela foi para o SPC. Por isso, não pega empréstimo e não tem cartão de crédito. A sua dificuldade é como investir o dinheiro. Programar o amanhã. “As coisas não estão tão caras quanto antigamente. Se você parcelar, acaba pagando mais caro. Prefiro juntar um pouco e comprar à vista”.

O caso dramático é de Wedna. Enfermeira de hospital público. Tomou empréstimo de R$ 13 mil para construir uma casa. Não conseguiu concluir a obra, nem pagar o empréstimo. Ainda tinha o aluguel da casa antiga. Só para piorar, o marido ficou desempregado. Parou de pagar a conta do cartão Itaú e o carnê das Casas Bahia. Honrava com dificuldade a faculdade de enfermagem.

A Caixa enviou uma conta de R$ 23 mil. Quase duas vezes o valor do empréstimo. Conseguiu renegociar, pagou R$ 4,7 mil à vista. Fez um empréstimo consignado para liquidar a dívida. Opção inteligente. O emprego no hospital público ajudou.

No cartão, a dívida de R$ 1,5 mil foi para R$ 5 mil. Das Casas Bahia, de R$ 500 para R$ 900. Negociou e pagou com desconto. Ainda devia R$ 2,6 mil da faculdade. “Foram anos difíceis. Por causa dos juros eu cheguei a dever R$ 30 mil. Estou quase saindo do problema. Os bancos oferecem crédito sem limite e você acaba se iludindo. O cartão também dá uma sensação falsa de que se tem dinheiro. Depois vem a conta. Hoje tenho mais maturidade.”

E Míriam Leitão perguntou ao final sobre a obra da casa, que foi a origem de tudo. Continua parada.

São casos exemplares da relação dos brasileiros com o dinheiro. Evidenciam como o crédito fácil inebria. Como é visível o descuido para se saber o quanto de juros se paga em uma compra parcelada. O descuido também com os infortúnios, como o desemprego. Noutro extremo, constata-se uma verdadeira repulsa por qualquer tipo de empréstimo. E mesmo no caso da previdência para poupar, falta informação para procurar o melhor investimento. Você se viu nessas histórias? É o Brasil sem educação financeira! Até a próxima!

Autor

Leandro Novais
Leandro Novais é professor adjunto de Direito Econômico na UFMG. Em seu espaço, pretende aliar um pouco de direito, inovação e economia, além de uma pitada de economia comportamental, para ajudar o leitor na sua compreensão econômica e nas suas escolhas financeiras. Seu lema: "o mundo a partir das escolhas de cada um". Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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