Divertida mente

Divertida mente

O meu exercício predileto é pensar
Passo muitas horas do dia só pensando
(Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, “Não me acabo”)

Recentemente fui com minha família ao espetáculo Disney On Ice, em Belo Horizonte. Na hora do intervalo, minha filha me pediu para comprar pipoca, eu concordei e fomos para a fila. Quando chegou nossa vez, aconteceu esse diálogo bizarro:

– Quanto é a pipoca?

– Tem de R$ 30 e de R$ 40, senhor.

– TRINTA e QUARENTA?? Que é isso??

– Qual das duas vai ser, senhor?

[3 segundos de intervalo]

– A de R$ 30.

– Certo, senhor.

– Vocês devem receber um treinamento para não ficar com vergonha disso, né?

– Esse preço é por causa do dólar, senhor.

– Companheiro, o dólar passa longe disso, seu patrão deve comprar o milho no Carrefour. Você sabe que isso é exploração.

– É porque é produto exclusivo, senhor.

– Parece que seu treinamento é bom, mesmo. Estou vendo que você não está com vergonha.

– Tenha um bom espetáculo, senhor.

Foi assim. Agora vou tentar descrever os pensamentos contraditórios que se passaram na minha mente nos tais 3 segundos de intervalo (não necessariamente nessa ordem):

  • Não posso me submeter a esta exploração. Preciso cuidar do meu dinheiro.
  • Esses R$ 30 não vão me fazer grande falta.
  • Com que cara vou escrever minha coluna semanal no blog, se aceitar esse abuso?
  • Ela quer a pipoca, me pediu e eu concordei.
  • Não devo comprar. Não é pelos R$ 30, é questão de dignidade.
  • Eu trabalho bastante, justamente para poder me permitir um luxo às vezes.
  • Se ninguém comprar, essa exploração acaba.
  • Tem muita gente comprando, olha o tamanho da fila.
  • Não devo comprar. Eu preciso dar o exemplo para minha filha.
  • Se eu não comprar, ela vai ver um monte de meninos comprando e comendo a pipoca (“O inferno são os outros”) e vai ficar triste comigo.
  • Se eu der o bom exemplo, no futuro ela vai ficar feliz comigo, quando entender melhor as coisas.
  • A vida é cheia de imprevistos que custam mais que R$ 30. O que eu economizo hoje na pipoca pode ir para o ralo amanhã de outra forma.

Como o leitor já sabe, eu acabei comprando. Minha filha – que tem 10 anos – gostou de ganhar a pipoca, mas percebeu a exploração. E ainda fez piada: “Pai, sabe esse tempero amarelinho que tem na pipoca? Deve ser ouro”. Rimos juntos, percebi que alguma coisa nós dois havíamos aprendido, e bola pra frente.

Depois fiquei pensando em outras atitudes que eu poderia ter tomado:

  • Simplesmente dizer “Não” e explicar que não podemos concordar com uma exploração daquela.
  • Dar os R$ 30 nas mãos da menina e dizer: “São seus, decida como vai usar. Se quiser comprar a pipoca, compre. Se quiser guardar, guarde”.
  • Não comprar a pipoca e combinar com ela que depois nós iríamos usar aqueles R$ 30 de uma forma muito melhor. E, no próximo passeio, transformá-los em uma revista, uma pulseira, um sorvete, um saco de pipoca mais honesto e um dinheirinho para guardar no cofre.

Teria sido melhor. Paciência, agora já era. Eu não sou muito bom para tomar decisões rápidas. Na próxima vez – e haverá próxima, não tenho dúvidas – eu posso agir de forma diferente.

Eu não poderia deixar de compartilhar essa experiência com o leitor. Lidar com desejos não é fácil. Na condição de pai, então, acho mais difícil ainda. É claro que eu sei da importância de ter disciplina, ter planos, conhecer os limites, dosar permissões e restrições, enfim, tudo o que envolve o consumo consciente. Tenho me dedicado a isso semana após semana. O que não evitou que eu me permitisse cair numa armadilha. Na próxima vez vou agir de forma diferente. Espero.

Autor

Ewerton Veloso
Ewerton Veloso é bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional e é professor de Administração. Neste espaço, pretende convidar o leitor à organização das suas finanças e à reflexão quanto ao seu comportamento como consumidor e investidor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *