Cenário Preocupante

Cenário Preocupante

Em meio a um cenário econômico incerto, marcado pela crise no país, o economista Frederico Torres, faz uma análise dos possíveis desdobramentos e prevê que as taxas de juros devem crescer ainda mais nos próximos meses, o que contribuirá para agravar a retração da economia. Como consequência, a inadimplência e a inflação poderão prejudicar ainda mais a população, que já está sofrendo com as medidas do governo e a restrição de crédito dos bancos. Com um diagnóstico preocupante, o economista fala sobre o efeito negativo dos juros altos, que encarecem praticamente tudo no país e recomenda planejamento financeiro no orçamento familiar e empresarial para evitar o endividamento.

Quais os efeitos para a economia e até quando as dívidas atuais podem interferir no desenvolvimento econômico do país?

As taxas de juros na ponta já estão altas e ainda devem subir um pouco mais e isso encarece as dívidas, aumentando o peso sobre os endividados. Além, é claro, o efeito desacelerador sobre a economia, com repercussões claras sobre o emprego e a renda. A interferência do endividamento não vai embora da noite para o dia, assim como não foi de repente que ela se instalou entre as empresas e famílias brasileiras. Isso é fruto de um processo de inclusão financeira e de ampla liquidez internacional que já vem durando muitos anos. Infelizmente, não tenho previsão de melhora no curto prazo. Aliás, temo que as coisas ainda piorem um pouco antes de melhorar.

As projeções pessimistas para a economia brasileira em 2015 estão se confirmando. Como você enxerga o cenário no país nos próximos 12 meses?

Difícil, uma vez que existem muitos fatores macroeconômicos negativos agindo ao mesmo tempo. Baixo crescimento econômico, inflação relativamente alta, desemprego em ascensão, tanto os juros básicos, quanto os juros na ponta para os consumidores em patamares elevados, aumento de impostos e cortes de gastos públicos para melhorar a situação fiscal do governo, déficit nas transações externas, níveis elevados de endividamento, tanto nas empresas, quanto nas pessoas físicas, e por aí vai.

Nesse período, o que de mais relevante no cenário econômico deve impactar a vida do brasileiro?

Inflação pesa no bolso de todos, praticamente todo dia. O desemprego, apesar de não afetar a todos, é crítico para quem perde o trabalho e, pelo andar da carruagem, não serão poucos os que ficarão sem emprego. Na minha atuação como educador financeiro, tenho aconselhado às pessoas que se previnam para o pior; que construam uma reserva financeira e tenham controle sobre seus orçamentos, identificando gastos supérfluos, fáceis de serem cortados, para a eventualidade do pior; que se aproveitem de oportunidades para quitar ou reestruturar dívidas, visando reduzir o ônus com juros. O objetivo é deixar o orçamento familiar o mais leve possível.

Na sua visão, quais são os maiores entraves para o crescimento do país? O que o governo e o setor privado podem fazer para alterar esse cenário?

Tem muita coisa pra se fazer, mas minha resposta curta é a redução do que se convencionou chamar de Custo Brasil. Reestruturação em várias áreas, visando simplificar e baratear o custo de se produzir por aqui e, assim, perder menos negócios e menos empregos para a China, por exemplo. Passa pela melhor definição do papel do Estado, o que deve fazer e o quanto consegue fazer bem. Veja bem, refiro-me a uma avaliação realista disso. Não adianta ser voluntarioso e achar que o Estado tem que ser uma mãe e que todo empresário é um vilão em potencial.

As projeções são de que as taxas de juros permanecerão em alta. Quais os efeitos negativos disso?

Sim, os juros reais hoje no Brasil são altos, principalmente quando comparamos internacionalmente. O principal efeito negativo do juro alto é encarecer praticamente tudo no país. Encarece o investimento, a produção, o consumo financiado, etc. Funciona como um quebra-molas que reduz a velocidade do país. Tem motor pra rodar a 80 km/h,  mas por causa do quebra-molas, roda a 30 Km/h. Quanto ao que pode ser feito, acho que, se você perguntar isso a 10 economistas, vai ter uma meia dúzia de explicações diferentes. Na minha modesta opinião, vejo o caso do país como uma extensão, mais uma vez, da minha atuação como educador financeiro. Imagine que, no seu orçamento familiar, você gasta muito mais do que ganha, ano após ano e vem acumulando razoável grau de endividamento, sendo que a maioria das despesas é engessada, ou seja, são aquelas das quais é difícil se livrar quando é preciso; além disso, imagine que há algum grau de descontrole financeiro, como se cada membro da família gastasse da sua cabeça, sem muita coordenação. Pois é, você acha que, se fosse ao banco pedir um empréstimo, eles lhe ofereceriam crédito? Provavelmente, não. Para o governo é mais difícil negar o crédito, mas quanto maior a bagunça, maior a taxa de juros que se cobra.

Com a alta da inadimplência, as empresas podem sofrer um efeito em cascata do não pagamento das dívidas? Quais as consequências disso e como o protesto pode auxiliar a conter o efeito cascata?

A princípio, sim. Em economia, quase tudo se comunica. Corte de gastos do governo gera queda do faturamento das empresas, estas fazem reduções de investimentos, que causam demissões, que resultam em quedas no consumo e em todos esses níveis pode-se gerar aumento na inadimplência. É difícil parar esse processo todo. O protesto sozinho não daria conta disso. Vale dizer, entretanto, que a transparência é um elemento fundamental ao bom funcionamento econômico. Quanto mais barato, fácil e rápido for obter boas informações econômico-financeiras, mais simples e menos incerta se torna a tomada de decisões, o que contribui para uma maior eficiência econômica. É como se passássemos dos 30 Km/h para 60 km/h, continuando a minha metáfora, percebe?

O brasileiro vai ter dificuldade com acesso ao crédito?

Já está tendo. Há alguns anos que a velocidade de crescimento do crédito vem diminuindo. Os dados demonstram que mesmo os bancos públicos, que vinham concedendo mais, estão pisando no freio. Isso deve continuar ainda por algum tempo. É difícil imaginar que os bancos aumentem as concessões de crédito tendo pela frente as perspectivas ruins que comentamos.

Verificar a existência de protestos em nome do tomador de crédito é uma boa medida para avaliar riscos na hora de conceder um crédito?

Com relação à verificação da existência de protestos, ela é comumente utilizada em conjunto com vários outros elementos em um processo de análise de risco de crédito, que é realizado antes de se conceder a maioria dos empréstimos.

Frederico Torres em entrevista para a Revista IEPTB-MG (Ano I 2015 / p.12-15)

Autor

Frederico Torres
Profissional do mercado financeiro há 20 anos e interessado em como fazer o $$$ parte de nossa vida de forma mais saudável.

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