Consumo: ter versus ser

Consumo: ter versus ser

“Devemos indagar por
ocasião de todos os desejos:
o que há de acontecer quando
meu apetite for satisfeito;
e o que acontecerá se ele não for.”
Epicuro 


Na casa de duas crianças de 7 e 4 anos,  na sala de TV a situação era a seguinte: Léo esperava papai chegar do trabalho assistindo seu programa favorito, quando de repente passou uma propaganda de um novo computador ultra, mega, super divertido, com música, filme, jogos, que você mexe apenas tocando na tela! Era o computador para crianças mais legal do mundo! E é claro, que Léo quis logo um e já foi esquecendo-se do combinado que fez com seus pais! Bia, sua irmã mais nova, que também assistia ao mesmo desenho, foi logo dizendo:

– Uauuu! Eu também quero um!

E Léo concordou:

–Vou pedir de aniversário e aí eu te empresto, Bia!

Mas, ela queria um só para ela… Uma cena comum e corriqueira do dia a dia está mais presente nos lares do que podemos imaginar… Como lidar com esta situação? Como explicar as crianças que nem tudo que vemos na TV não é preciso comprar?

 A cena continua. A mãe das crianças entra na sala e pergunta à elas:

– Por que vocês QUEREM esse computador? Pensem… Vocês PRECISAM desse computador? É uma necessidade? Temos dinheiro para comprar esse computador? 

Nesse momento Léo já sabia a resposta. Ele já tinha tido uma conversa com seus pais sobre orçamento familiar e sobre ser um CONSUMIDOR ESPERTO.

A mãe então completou:

– O objetivo da propaganda é esse mesmo! Despertar nosso interesse, nossa vontade para os produtos que eles querem vender. Mas o GRANDE SEGREDO é que muitas vezes não precisamos daquele produto e compramos assim mesmo, por que somos convencidos pela propaganda. Nós vemos propaganda o TEMPO TODO, nas rádios, nos outdoors, na televisão, numa revista… O que precisamos é ficar esperto e sempre fazer as 3 perguntas secretas:

  1. Eu quero esse produto?
  2. Eu preciso desse produto?
  3. Tenho dinheiro para comprar?


Um simples acontecimento cotidiado nos possibilita diversas reflexões sobre o bombardeio vivido diariamente incentivando o consumo. No post de hoje, apresento algumas dessas reflexões. 

 “Ter” para ser aceito Independentemente do nível socioeconômico, todas as crianças tem acesso à mídia, como tratamos em em posts anteriores, aqui e aqui. Identificamos características homogêneas entre essas crianças no que se refere ao seu comportamento e estas características podem ser notadas nas relações interpessoais e de identidade, na maneira de lidar com o cotidiano econômico e a mídia. Dessa forma, os programas de televisão utilizam de seu poder de influência e realizam um forte apelo em termos de comportamento, no que se refere às vestimentas e aos gastos.

Nossas crianças vão crescendo em contato com muitas informações e se encontram numa fase em que, o que gostam e valorizam, querem ter e um dos motivos é que todas as pessoas que são consideradas “legais” possuem aquele produto. Neste contexto, os pais começam a considerá-las adultas e o marketing as trata como clientes, mas ainda sim, trata-se de crianças e não de pequenos adultos.

A tecnologia – Outro fator é o meio em que estas crianças vivem: um meio muito solicitador, que resulta em um desenvolvimento em relação à tecnologia exagerado, elas crescem neste meio tecnológico e o computador faz parte do seu cotidiano. Além dos aspectos citados, os livros de psicologia atuais não caracterizam essa faixa etária globalizada que vive em um mundo digital. A teoria que ainda auxilia esta compreensão está sustentada nos pilares da psicologia piagetiana e da psicologia econômica. A teoria piagetiana, busca esmiuçar não somente as estruturas da criança, mas também o sistema de significações que estabelece. É a partir daí que constrói suas regras, seus valores, juntamente com a família, com a sociedade e com os amigos neste contexto social. Atualmente, uma criança tem facilidade em estar em frente ao computador e ao ser demandada intelectualmente, desenvolve-se nesses aspectos, diferentemente dos seus pais que não tinham contato com essa tecnologia tão cedo assim. Com dois ou três anos já estão brincando com este instrumento. O desafio passa a ser buscar formas de identificar como são hoje as estruturas dessas crianças diante as tantas novas solicitações que o meio apresenta.

No que se refere à psicologia econômica, ainda é um estudo muito recente e investiga o comportamento do consumidor frente às necessidades e à sua organização pessoal, como desenvolve estratégias para lidar com a vida econômica, os mecanismos psicológicos que estão por trás de determinados comportamentos e as diferentes maneiras de como as pessoas compreendem o mundo da economia e suas variações.

São estudos recentes e frente a um mundo que está repleto de produtos, somos bombardeados por propagandas que querem a todo instante nos convencer a comprá-los:

Base das escolhas financeiras Um aspecto que muitos desconhecem é que a base das escolhas financeiras que realizamos hoje é forjada na infância, ou seja, a forma como cada um de nós lida com o dinheiro no dia-a-dia é algo construído até os seis anos de idade aproximadamente. Por isso é imprescindível participar as crianças das decisões de forma inteligente e encaminhar bem esta formação. Formando consumidores “espertos e responsáveis” estamos aprendendo a decidir se devemos comprar ou não aquele produto, a escolher e toda oportunidade poderá ser aproveitada.

Diálogo – O diálogo constante com as crianças propicia abordar aspectos sobre o que será consumido e refletir no sentido de ajudá-las a se preparar para o consumo. Alguns destes aspectos são:

Identificar a qualidade do produto;
Diferença entre querer e precisar;
Pesquisar preço – estabelecer comparações;
Escolher o produto mais apropriado;
Comprar por que quer e não por que todos possuem;
Entender que imagem não é tudo, aprender a ver por trás da propaganda perfeita;
Compreender por que geralmente são celebridades que divulgam os produtos nas propagandas;
Realizar outras atividades para além da Televisão;
Realizar planejamento;
Incentivar a poupar com disciplina.

Ao despertar o interesse da criança, envolvê-la na busca de soluções, analisar as escolhas mais adequadas dentro do orçamento familiar constitui-se ações bem definidas para observar antes de consumir e conquistar o que se quer.

Dessa forma, passamos a distinguir o que é ter e o que é ser. Ser no mundo atual pode e deve estar dissociado do que se possui, do que se tem. Construindo no ser a confiança em si mesmo e entendo como funciona o mundo econômico surge liberdade de escolher o que será adquirido sem a necessidade de se auto afirmar para este ou aquele grupo de pessoas.

 

_________________________________

Bibliografia:
Fermiano, M. A. B. (2000). Nível cognitivo de alunos do curso de magistério. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas – São Paulo. 146p.

Fermiano, M. A. B. (2010). Pré-adolescentes (“tweens”) – desde a perspectiva da teoria piagetiana à da psicologia econômica. (Tese de doutorado). Campinas – São Paulo: [s.n.]. 386 p.

Autor

Lívia Senna
Lívia Senna é mestre em Gestão e Administração Educacional pela Universidade de Coimbra, em Portugal, e pedagoga graduada pela UFMG. Atua na área de Educação Básica e Ensino Fundamental há 12 anos. Educadora também na área de graduação, concentra seus estudos e pesquisas na área de Educação Financeira para Educação Infantil e Formação de Professores.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *