O bom endividamento

O bom endividamento

“Dívidas, juros, dividendos.”
(Titãs, “Dívidas”)

Meu cunhado, sujeito sensato e bem formado, costuma dizer que “quem não se endivida não cresce”. Já vi algumas pessoas reagirem com desconforto a essa frase, mas, quando o assunto se desenvolve, a maioria acaba entendendo e concordando. Já falei aqui no blog sobre o endividamento excessivo, aqui e aqui . Hoje vou falar sobre o endividamento saudável.

Primeiro é necessário entender o que são dívidas. Sempre que consumimos algum produto ou serviço e adiamos o pagamento, estamos contraindo uma dívida. Portanto, até mesmo uma conta que você tem na padaria, e que quita a cada quinzena, é uma dívida.

Recente pesquisa realizada pelo SPC Brasil indica que a maioria dos brasileiros não sabe ao certo o que é endividamento. 52% pensam que estar endividado é ter contas atrasadas e 21% pensam que é ter o nome registrado nos cadastros de inadimplentes. Quem não sabe o que são dívidas talvez não saiba lidar bem com elas. É o que revelam outros pontos da pesquisa. Mais de 40% dos entrevistados admitiram já ter deixado contas vencerem alguma vez, e mais de 50% já tiveram o nome “sujo”. Além disso, 36% dos entrevistados não conseguem poupar dinheiro regularmente e 15% admitem já ter gastado mais do que ganham. Os principais motivos alegados para se chegar ao desequilíbrio foram o descontrole nos gastos e a facilidade no acesso ao crédito.

A pesquisa fala sobre o lado ruim das dívidas. O que meu cunhado quis dizer com sua célebre frase é que há dívidas boas. São aquelas contraídas com cuidado, planejamento e bom senso.

Mas como fazer isso? Eu sugiro os “cinco passos para o bom endividamento”:

  1. Conheça sua situação financeira. Saiba o quanto você ganha e, principalmente, quanto e como gasta.
  2. Faça uma reflexão sobre o necessário e o supérfluo. O bem que você deseja adquirir é mesmo necessário? E, se não for, este é um momento razoável para investir em algo supérfluo?
  3. Pesquise e negocie muito os preços e os juros. Fique atento não apenas aos juros nominais, mas ao custo efetivo total, isto é, tudo o que se gasta com juros e tarifas.
  4. Observe o impacto da prestação no orçamento familiar – é importante repetir, porque é nesse ponto que muitas pessoas se enrolam em dívidas: não basta saber se a prestação cabe no orçamento, é fundamental entender as taxas de juros e as tarifas envolvidas na compra.
  5. Faça o que em finanças chamamos de teste de stress. Isto é, tente imaginar como ficará sua condição de arcar com a prestação caso sua situação financeira piore – por exemplo, caso perca o emprego, ou sua empresa passe a vender menos, ou suas despesas aumentem mais que seu salário. Não existe uma fórmula pronta para isso, cada caso é diferente. É preciso avaliar bem o cenário, pensar em planos de emergência, em gastos que poderão ser cortados, em fontes alternativas de receitas e no nível de risco que deseja assumir.

Cumpridos esses passos, é hora de investir em si mesmo, adquirir aquele tão sonhado bem, sem perder o sono por causa dele.

Autor

Ewerton Veloso
Ewerton Veloso é bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional e é professor de Administração. Neste espaço, pretende convidar o leitor à organização das suas finanças e à reflexão quanto ao seu comportamento como consumidor e investidor.

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