Busque seus direitos

Busque seus direitos

Já faz um tempão que, felizmente (!), aboli o terno e a gravata do meu guarda-roupas cotidiano e adotei o jeans. Pra ir ao cinema ou a um restaurante, pra trabalhar, pra passear, pra ficar em casa, a calça jeans cinco bolsos é pau pra toda obra. De tanto usar, acabei tomando gosto por uma marca – relativamente conhecida – e já faz uns bons aninhos que praticamente só compro dela.

De uns tempos pra cá, duas calças começaram a esgarçar. Meio triste com o ocorrido, e pensando em renovar o guarda-roupas, cheguei a cogitar experimentar outra marca, mesmo apesar de as minhas outras calças dessa marca ainda estarem em muito bom estado.

Sentindo um misto de incômodo, resignação e vontade de tentar mais uma vez, fui a uma loja outlet da marca pra comprar um black jeans – similar a uma das que estavam furadas. Comentei com a vendedora o porquê daquela cor, ela chamou a gerente, pra quem repeti a minha ladainha. A gerente prontamente me disse que eu poderia deixar com ela as minhas duas calças furadas, que ela iria avaliar a possibilidade de troca.

Num outro dia, fui lá e deixei as minhas calças para análise; eles demoraram uma semana pra dar o veredicto e não é que as duas calças foram avaliadas e trocadas?? Não foi uma troca um pra um, claro, as minhas já estavam usadas e não seria justo valerem o mesmo preço de uma nova de igual modelo. Mas cada uma das minhas velhinhas entrou na compra por um preço razoável, e eu acabei levando duas calças novas pagando essa diferença, que era praticamente o preço de uma!

Muitas vezes, eu lido com essas questões de qualidade de produtos meio que resignadamente. Sempre que penso em reclamar por uma troca, eu até vou em frente, mas com uma certa preguiça de brigar, de ter que argumentar. Deveria ser desnecessário perder um minuto sequer discutindo com o lojista nos casos em que o cliente tem de fato o direito de ter seu produto trocado. Em situações em que o produto já é usado e fica mais difícil comprovar que o defeito não foi produzido por mim mesmo, mas por “vício de origem”, minha resignação às vezes me pega de jeito e me faz desistir antecipadamente da dor de cabeça. Claro que em situações de compras recentes, com nota fiscal em mãos, não titubeio e, nesse caso, as lojas de fato têm sido mais cuidadosas com os direitos do consumidor (embora sempre haja espaço para melhorar nesse quesito!).

Tenho a impressão de que a gente vive num círculo vicioso aqui no Brasil: nós, clientes, não reclamamos ou porque não conhecemos bem nossos direitos ou porque não acreditamos que eles serão atendidos. Os lojistas e/ou fabricantes, sabendo disso, não fazem o menor esforço em nos ajudar, ou mesmo até suam a camisa, mas pra atrapalhar a nossa vida e não pra resolver o problema. Isso nos traz resignação, descrença, raiva, preguiça de brigar pelo que é nosso, fechando esse círculo.

Bom, o que tirar disso tudo? Talvez sem saber, essa loja de roupas renovou fortemente a minha fidelidade à marca e, por que não, a esperança de dias melhores nas relações entre consumidores e fornecedores. Se cada um de nós brigar mais pelos seus direitos, talvez o comportamento dos fornecedores e lojistas vá mudando com o tempo, contribuindo para uma relação menos desigual de forças, em comparação ao que vivemos hoje. Para que isso aconteça, é preciso que não fiquemos calados quando nos virmos numa situação de injustiça. Nessas desavenças comerciais que todos nós vivemos aqui e ali, boca no trombone e caldo de galinha…

Autor

Daniel Loureiro
* Daniel Loureiro é mestre em Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais, atua no mercado financeiro há 15 anos, com experiência tanto vendendo produtos na linha de frente quanto na área de controles e supervisão, e também tem vivência no meio acadêmico. Neste espaço, vai demonstrar que aprender a lidar com dinheiro pode ser tão prazeroso quanto uma boa corrida, esporte do qual é adepto.

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