Feito pra acabar

Feito pra acabar

Você alguma vez já parou para reparar o tempo de vida útil de um aparelho que adquire? Já teve a sensação que, mal venceu a garantia, o produto já não funciona tão bem quanto antes? Já se sentiu impelido, diante de um eletrodoméstico estragado, a comprar outro e nem procurar se tem conserto? Pois saiba que há um nome para esse fenômeno de durabilidade reduzida de produtos diversos: obsolescência programada. Na crise de 1929, o conceito foi levantado como uma medida de estimular o mercado de consumo¹. Nunca se tornou oficial, mas há indícios, que o consumidor percebe na prática, de que um bem hoje não dura tanto como durava no tempo dos nossos avós. E isso, aliado ao desestímulo ao hábito de consertar, estabeleceu a cultura do zero quilômetro no contexto da sociedade de consumo: só é melhor se for novo, se for o último modelo.

Em 2011, em uma coprodução Espanha e França, a diretora alemã Cosima Dannoritzer produziu o documentário “Comprar, Jogar Fora, Comprar” (em espanho “Comprar, Tirar, Comprar” e em inglês “The Light Bulb Conspiracy”), em que reflete sobre a sociedade de consumo e investiga o que é a obsolescência programada e como ela, de alguma forma, ainda que não oficial, guia as indústrias e o comércio. No ano seguinte, divulgando o trabalho, Cosima esteve no Brasil e em uma entrevista revelou as motivações da videoinvestigação. “Eu ouvia um monte de lendas urbanas sobre obsolescência programada. Todas elas iam pela mesma linha: era uma vez um inventor que patenteou um produto que duraria para sempre – lâmpadas, pneus, carros, o que seja – e então o inventor ou a invenção desapareceram sob circunstâncias misteriosas. Você pode procurar pela internet. Está cheia dessas histórias. Eu queria saber se havia alguma verdade nelas. E, na verdade, a realidade se tornou ainda mais estranha”, afirmou.

Em pouco menos de uma hora, o filme traz analistas diversos que olham para o passado e para o presente para traçar um panorama sobre consumo, durabilidade, economia, sociedade. “O problema com a obsolescência programada é que isso está espalhado em todo o sistema. É um dos pilares que sustenta o crescimento da economia. O pior para mim é que o consumidor não está sendo avisado sobre a duração do produto. Se nós tivéssemos essa informação, poderíamos fazer uma escolha consciente sobre qual modelo ou marca comprar”,  avaliou a diretora.

Num momento em que se discute tanto um futuro mais sustentável, pensar no quanto e em como consumimos parece fundamental. “Eu acho que devemos ficar longe da ideia de que ‘bem-estar’ está sempre relacionado à posse de objetos, de preferência algo que ninguém mais tenha. Eu encorajaria as pessoas a pensarem no que estão comprando produtos como presente”, pondera Cosima.

Aproveitando que é sexta-feira e vem aí os dias de descanso, para a maioria, que tal assistir o documentário e refletir sobre essas questões? O Educando Seu Bolso coloca aqui a versão legendada em português. Aproveite.

 

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¹ “Na década de 1920, um cartel que reunia fabricantes de todo o mundo decidiu que as lâmpadas teriam uma validade: 1.000 horas (embora a tecnologia da época já pudesse produzir lâmpadas mais duráveis, e uma lâmpada de 100 anos que ainda permanece acesa é citada logo no início do documentário). Assim, as empresas conseguiriam garantir que sempre haveria consumidores para seus produtos. Com a crise de 1929 o consumo caiu. E a obsolescência programada se consolidou como uma estratégia da indústria para retomar o crescimento.” (Fonte: “Programado para Morrer” em Estadão, por Tatiana de Mello Dias)

Autor

Liliane Pelegrini é jornalista e neste espaço pretende trazer um pouco da experiência do consumidor que ainda precisa aprender a lidar com o próprio dinheiro.

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