Carta para o filho que eu quero ter

Carta para o filho que eu quero ter

Involuntariamente, a semana aqui no Educando Seu Bolso está muito pautada pelas crianças. Domingo agora é comemorado o dia delas e, naturalmente, o tema veio à tona pelas mãos dos nossos colunistas Ewerton Veloso e Daniel Loureiro. Justo dizer também que aqui os pequenos não são lembrados só em função da efemeride – se você não leu sobre a visita que o Frederico Torres fez ao Instituto Neusa Rocha, tire mais um minutinhos do seu dia e leia, porque realmente vale a pena.

Então hoje, sem sair do tom, peço licença para falar não de dinheiro, mas daquilo que o dinheiro não compra e nem vai poder comprar.

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CARTA PARA O FILHO QUE QUERO TER 

“Quanto maior a concentração de riqueza e maior
a desigualdade dentro dos países, menores são as
chances de se alcançar a sustentabilidade mundial.
Os mais conceituados ambientalistas já entenderam
essa conexão, chegou a vez de nossas sociedades.”
Sam Pizzigati

 

Criança,

Eu não sei se você virá um menino ou uma menina, muito embora seu pai tenha lá as apostas – não preferências, preste bem atenção – dele. Não sabemos ainda quando você virá, mas estamos prontos – ou pelo menos pensamos que sim, se bem que no fundo ninguém deve estar muito pronto para a responsabilidade e a alegria de conduzir um ser humano novinho em folha pelo mundo. Já temos até nome para você, se vier menina, e algumas opções (e várias dúvidas) se vier menino.

Mesmo antes que você exista e que eu saiba quem é você ou quem será você, queria contar que desde já – ou desde sempre? – penso muito no mundo que eu gostaria de mostrar para você. As coisas aqui fora andam complicadas. Quando eu nasci, havia todo um clima de esperança, depois de anos de repressão. Hoje, vivemos em um sistema livre, sim, e é justamente por isso que me impressiona tanta intolerância, tanto descontrole, tantos preconceitos, tanta ganância. Quando você nascer, pode ser que as coisas ainda estejam assim. Por isso me preparo para poder já ter algumas respostas na ponta da língua, quando você quiser saber sobre elas.

Em primeiro lugar, queria explicar o motivo pelo qual escrevo isso para você, aqui, neste contexto em que falamos de dinheiro, de investimentos, de crédito, poupança e outras coisas em que sua mãe ainda está engatinhando. É simples, criança: eu quero que você saiba, desde o primeiro momento em que tiver compreensão para tal, que dinheiro é importante, mas não deve ser a coisa mais importante da sua vida. Trabalhamos para que você tenha o suficiente para aproveitar as coisas pelas quais você demonstrar gosto e quando chegar a sua hora, espero que entenda isso. Que você saiba usar o que terá no bolso, mas sem esquecer de usar o que estará em sua cabeça e no seu coração.

Quero explicar que o dinheiro, por exemplo, não vai manter o mundo vivo se você e eu e seu pai e todas as pessoas não cuidarmos, por exemplo, das árvores, das nascentes, dos animais, se não reciclarmos nosso lixo, se não produzirmos menos lixo, se não usarmos a água e a energia com parcimônia. Quero contar para você que nosso cartão de crédito não vai comprar o ar que você respira, por isso eu preciso que você saiba que gastar demais, consumir demais não vai só desequilibrar as nossas contas bancárias, também pode custar as nossas vidas, a vida do nosso planeta. Gostaria que você andasse mais de bicicleta do que eu andei e que me ajudasse a lembrar que o carro deve ficar guardado para momentos muito necessários, como viajar com nossos cachorros. Gostaria que você, como eu, também apreciasse passar horas lendo e não fosse dependente dos computadores. E gostaria que você gostasse de política e entendesse que o mundo vai muito além de você e das suas necessidades. E, acima de tudo, gostaria que você respeitasse as diferenças entre os seres humanos (e nós somos todos tão diferentes…!), e que compreendesse que a vida não é descartável. (E isso tudo pode soar meio clichê, mas qual mãe não é clichê?)

No final do mês passado, setembro de 2014, que você só vai conhecer pelo que eu lhe contar no futuro, houve um encontro de centenas de chefes de estado em Nova York na sede da ONU, lá nos Estados Unidos. Um dia explico melhor o que significam essas três letrinhas. O encontro era para conversar sobre as mudanças climáticas e sobre como os países podem se desenvolver economicamente sem levar o ecossistema a um colapso sem volta. Nesse dia, alguns cidadãos, além das autoridades, também puderam falar. Entre eles, uma jovem poeta e mãe chamada Kathy Jetnil-Kijiner, das Ilhas Marshall, que ficam bem longe aqui do nosso país, deu, com sua poesia, talvez o mais importante de todos os recados – e eu peço licença a ela, à filhinha dela, Matafele Peinam, a quem é dedicado o poema, e a você, para reproduzir aqui um pedaço do que ela escreveu:

“(…)Ainda assim,
existem aqueles
que nos enxergam,
com as mãos tentando alcançar,
punhos para cima,
cartazes se desdobrando,
megafones gritando,
e nós somos

canoas bloqueando navios carvoeiros,
nós somos
a irradiação de vilas solares,
nós somos
os solos ricos e limpos dos fazendeiros do passado,
nós somos
petições florescendo da ponta dos dedos de adolescentes,
nós somos
famílias andando de bicicleta, reciclando e reutilizando,
engenheiros sonhando, desenhando, construindo

artistas pintando, dançando e escrevendo,
nós estamos espalhando a notícia,
e existem milhares nas ruas
marchando com placas, mãos dadas,
cantando por mudança AGORA.

 

Eles estão marchando por você, meu bebê,
eles estão marchando por nós,
porque nós merecemos fazer mais do que apenas
sobreviver.
Nós merecemos
prosperar.

Querida Matafele Peinam,
seus olhos estão pesados
com sono,
então apenas feche esses olhos, meu bebê
e durma em paz
pois nós não iremos desapontá-la.

Você vai ver.”

 

Então, um dia, criança, quero ler esse poema todinho para você e, quem sabe, ouvir como resposta:
– “Mas isso eu já estou vendo, mãe.”
(E é para isso que eu e seu pai estamos nos esforçando, pode ter certeza. Mãe e pai sonham alto…)

Com carinho,

Sua (futura) mãe.

Autor

Liliane Pelegrini é jornalista e neste espaço pretende trazer um pouco da experiência do consumidor que ainda precisa aprender a lidar com o próprio dinheiro.

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