Como diferenciar o necessário e o supérfluo?

Como diferenciar o necessário e o supérfluo?

 

“Desejo, necessidade, vontade…” 
(Arnaldo Antunes, “Comida”)

 POR EWERTON VELOSO *

Qualquer pessoa que deseje melhorar sua situação financeira deve, necessariamente, conhecer seus gastos. A maioria dos programas de gerenciamento de finanças pessoais em algum ponto sugere que façamos um julgamento, digamos, moral das nossas despesas: é necessário ou supérfluo?

É claro que esse julgamento é subjetivo e muito particular, já que se comunica diretamente com nossos valores. Mas a subjetividade precisa de limites. Caso contrário, cairemos num vale-tudo que não nos leva a lugar nenhum. Nesse meu texto de estreia decidi falar sobre esse assunto e, para isso, recorro a duas situações recentes que presenciei em sala de aula.

A primeira delas ocorreu em um curso de finanças pessoais. Quando falávamos sobre a distinção entre necessário e supérfluo, um colega declarou que, para ele, ter café espresso em casa é uma necessidade. Entendo o que ele quis dizer, mas não concordo.

Partindo para o pantanoso terreno da especulação, suponhamos que ele gaste uns R$ 150 mensais com o tal café – umas duas ou três cápsulas por dia. É um sujeito bem empregado, organizado, sei que isso não afeta em nada suas economias. Além disso – e aí mora o principal –, ele realmente adora café. Eu não estou, absolutamente, condenando o hábito dele, mas me recuso a classificar café espresso como necessário. A ele pode até parecer assim, levando em conta que existe quase uma devoção e que não há perspectiva de que algum dia ele precise abrir mão disso por razões financeiras. Mas insisto: necessário não é.

A outra situação de que me lembrei ocorreu quando eu conversava com meus alunos sobre finanças pessoais. A certa altura, pedi que levantassem a mão os que usam aparelho ortodôntico. Uns seis ou sete levantaram. Em seguida, perguntei quais deles usavam o aparelho com fins estéticos. Uma aluna levantou timidamente a mão, outras duas alegaram defensivamente que havia razões fisiológicas, outros ficaram calados.

A expectativa da turma era a de que eu classificasse o aparelho como supérfluo. Para a surpresa de alguns e alívio de outros, afirmei que, em minha opinião – e ressaltei que era apenas minha opinião –, ele é uma necessidade, porque devolve a autoestima. Imediatamente, dois alunos que estavam em silêncio confirmaram que, antes de usar o aparelho, eles tinham vergonha de sorrir, e agora não tinham mais. “Então”, completei, “alguém vai me dizer que isso é supérfluo?”.

Este é o dilema do necessário e do supérfluo. Algumas vezes, a questão é semântica – é possível que eu e aquele meu colega do café pensemos exatamente da mesma forma sobre o hábito dele, mas eu prefiro chamar de supérfluo, e ele, de necessário. Outras vezes é questão de opinião. E, muitas vezes, é questão de prioridade. Digamos que o aparelho ortodôntico seja necessário e que o material escolar do filho também o seja. Qual dos dois é mais importante? Eu diria que, em princípio, é o material escolar. Caso a pessoa precise sacrificar um dos dois, sacrifique-se o aparelho. Que nem por isso deixa de ser necessário.

A pergunta que intitula esta coluna permanece sem resposta exata. Não era minha pretensão respondê-la, mas sim convidar o leitor à reflexão, sem cair na permissividade e sem se prender a uma austeridade exagerada.

 

* Ewerton Veloso é bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional e é professor de Administração. Neste espaço, pretende convidar o leitor à organização das suas finanças e à reflexão quanto ao seu comportamento como consumidor e investidor.

 

(Foto: Lebre Azul)

Autor

Ewerton Veloso
Ewerton Veloso é bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional e é professor de Administração. Neste espaço, pretende convidar o leitor à organização das suas finanças e à reflexão quanto ao seu comportamento como consumidor e investidor.

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